sábado, 8 de fevereiro de 2014

#81 - calibre colibri




O crime come a arte
A arte come o crime
A arte que não é boba
                                     Rouba
Tudo que com ela oprime

Eu caço na poça a arte
O paço se coça com o crime
Vou da poça ao paço, destarte
Do sublevado ao sublime

Se a beleza da natureza não é pura
A natureza de toda beleza é a tristeza
A alegria é ver natureza na cultura
E mais ainda cultura na natureza

Se atreva a negar quem te ordena
Escreva a beleza pelos olhos da fera
Canta da boca que te apequena
Fura o olho que te exagera

#80 - Jaguar Freeway




E a tarde alaranja o nunca
E o dia que a noite trunca
E a onça nos olhos da anta
O segredo que não se junca
Acaba virando pergunta
Que assunta na hora da janta

Ainda tenho os japiins
Nas manhãs pétreas no cais
Seus olhos com mapas sem fim
Brilham de pátrias fractais
E o segredo é que sou pequeno
Não caibo no meu próprio aceno
Mas não posso ficar para trás
Buzinas, aracuãs, Brian Eno
Misturam-se ao acetileno
Das amazônias industriais
(O que esperar da minha arte?)
E os cães suscetíveis das tardes
Latem manhãs iguais

Vejo formigas suicidas
Atravessando a Getúlio Vargas
Uma cotia esquecida
Na Torquato, atassalhada
O asfalto grelha calangos
O filhote de gato é rango
Do cão da Rua dos Andradas

Uma borboleta azul presa
Entre um vidro e outro do 213
Uma preguiça caiu e saiu ilesa
Mas cairá outras vezes
Silenciam pobres maritacas
Ao cortarem árvores parcas
Na Reserva dos Ingleses

Crianças sonham um surfe
No Igarapé de garrafa pet
Os pais disputam num turfe
Um lugar no busão das sete
O Shopping com cheiro de esgoto
Um feto há semanas morto
Num beco da Zona Leste

E o amor sobrevive atento
Por 20 minutos cretinos
Enquanto carros violentos
Disparam com o mesmo destino
Eu te espero atrasado
E teus olhos do outro lado
Da mal tratada Constantino

Teu amor simplificou as dores
E as flores mortas dessa escrita
Todos os dias são jardins e cores
Sobre o cinza rodoviarista
Pois na vida eu já não falto
Ainda que não tenha asfalto
Na velha Djalma Batista

Nas bocas não tem poemas
Quando muito um jaraqui
A canoa que rema, rema
Quer motor pra sair daqui
Mas o caboclo que é esperto
Segue a banda podre, de perto
Ou não come a do tambaqui

E a onça nos olhos da tarde
E arte que engonça não encarde
E a mulher nos olhos do homem
A lágrima de amor não arde
Quem caça não faz alarde
Quem vive tem sempre fome