quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

#78 - Ventanera



La poesía tiene su propio poema de amor en un espejo. El pelo sin fin en sus ojos complejos. Con labios de Lilith. Dientes de azulejo. Personajes en Lilliput. Lectores más lejos. Beso de Pizarnik. Deseo Sputnik. Mordedura de perro. La poesía tiene su propio poema de amor. Con palabras de arena. Y sentidos de cristal. La libertad de Arenas. Todo un desierto en la cara terrena. Y en los ojos, un temporal. Entre la resistencia armada y la residencia alada hay la espontaneidad del abismo. Y siempre usted ventanera entre huelgas forzadas, y yo mismo. Cuando me miras, la poesía le ve en el espejo. Y el pelo sin fin en tus ojos complejos. Y como te quiero con la belleza más tonta que existe! Si la poesía tiene un rostro, es lo que me diste. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

#77 - Eliziane Laundry Shop





Ela cortou o cabelo bem curto e pintou de lilás. Eles não esvoaçavam mais como as flores de plástico na janela sob o vento de outono. O quarto úmido da sua inocenciazinha já besta. Abriu a cortina: Bom dia dióxido de carbono! Que sono... Ainda bem que é sexta. E um céu rosa plúmbeo incidia na sua testa. Que franzia com aquele olhar irônico, cheio de entorpecências delicadas. Ela escrevia pequenos poemas em prosa. Sobre femininices raivosas e mais nada. Um dia eu me jogo dessa janela, numa impaciência alada. Com os dentes mordendo o canto esquerdo dos lábios, meio sexy, meio loki. “Me jogava sem glamour.” “Nem glitter, nem gloss. Nua e atroz (ouvindo um glam rock)” E lá embaixo uma poça de sangue tipo Hitchcock. “Mas não às seis da manhã dos meus dezessete”. Conjectura, debruçada no parapeito. Queria ter mais peito, mas não ia mostrar nesses decotes que nem periguete. Ela ouvia Belle y Sebastian no flat escuro do Liam, que os pais eram ricos. E convulsionava ainda com alguns sertanejos românticos cantados pelo Igor que vivia de alguns bicos. Dormia na aula de desenho geométrico e na sua cabeça oceânica sobrenadavam feixes triangulares e peixes interinsulares sem fim (arrumou um emprego numa lavanderia nos Jardins). E imaginava que por trás dos seus olhos havia uma daquelas máquinas, mas no lugar da água era alguma tinta escura que manchava todos os tecidos. Manchava toda a roupa da Lucila que fazia a Marilyn com seu vestido branco zurzido. Acorda garota, e vai atender o cliente! - diz Rossi, o gerente recém promovido. 

Ei, pega leve. Você sabe que daqui a 10 anos, todos terão inveja de ti. Veja o poema que eu fiz. Ele fala de ti. Ele fala de ti, Liz. 

Logo que saía de sábado ia me encontrar pra tomar um pisco sour. Sua mãe, que agora frequenta a Igreja, e também o EJA, tomava só uma e outra cerveja no happy hour. “Que eu nunca veja, você voltando bêbada, menina. Eu meto uma bala na cabeça se eu ver repetir essa sina”. Ela se sente on the road ouvindo rock basco na sua bike azul. Mas ela mora em Osasco e o mais longe que visitou foi a Zona Sul. Ela só tem amigos homens, e a Bia que fala “cool”. E deixa ela constrangida. Dos seus amigos, só dois leram algo na vida. Um virou frade, o outro agora se chama Frida. Não se engane se ela fala sobre Modigliani. Ela conhece uma ou outra coisa dele, só diz pra impressionar. Desencane. Ela é mais do que isso, se você souber enxergar. Tenho que te falar que ela tem achado todo menino um saco. Parou de falar com o Manuel desde quando ele disse (na quinta série) que ela tinha nariz de macaco. Só de Osasco, ela beijou uns 50, e na Augusta alguns, incluindo a Ceumar. Mas a primeira vez quando ela sempre tenta, desiste porque os caras não sabem amar. Ela ia prestar o vestibular pra filosofia. Talvez ano que vem, quando sua mãe voltar a trabalhar de dia. Talvez ela largue a lavanderia. Mas talvez trabalhe na Riachuelo no setor Teen. Talvez com o Bruno na Chilli Beans. Esses dias descobriu o que é Spleen. Talvez comece a ler Nietzsche. Ela chora todas as noites, o que piora a sua bronquite. Abraça o travesseiro e pensa em ter um namorado engraçado, leve e meio beat. Vou me embora daqui. Espero que seja breve - diz, com a sua disciplina triste. Ei, vai com calma. Veja o poema que eu fiz. Ele fala de ti. Ele fala de ti, Liz. 

Ela pega a bicicleta e dirige com os olhos fechados por cinco ou seis segundos. E o mundo, e o mundo. Que gira com aquelas canelas finas que ela odeia. A saia indiana levantando um pouco e o azul da meia, e o azul da meia. Talvez ela troque de quarteirão e só isso. Talvez ela troque... de rock... ou queira compromisso. Talvez arrume um namorado playboy que lhe pague um jantar no bistrô. Talvez uma bolsa em Bordeaux. Se ela tirar só 10 em História e conquistar aquele professor. Talvez um vestido bordô em frente ao bordel e um titubeio. E o amor que não veio, e o amor que não veio.
Eu digo que ela é wonderful, imitando o Louis Armstrong, e ela sorria. Não chora, o mundo é uma bosta, mas você será uma estrela um dia. Eu não falo isso só como o rapaz estranho que escreve poesia. Você sabe que não falo isso só como o rapaz estranho que escreve poesia. Eu digo que ela é bacana, mas no fundo ela sabia. Ei, não chora, escreva um poema, abra a janela e respira fundo. Logo, logo você estará no topo do mundo. 



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

#76 - Carhuasanta



Para Juliana de Almeida.

Vejo com bons olhos a demissão dos designers de eu interiores e os budistas-CEO. Pouco vale acumular o dinheiro empregado no revestimento das superfícies terrestres. Pouco vale as paredes pintadas de fora. Pouco importa todo o mistério da janela, depois de descobrir aquele amor que é simplesmente o bem viver no bem querer o outro. É preciso enfeitar o lar aéreo do outro. Mais do que enfeitar, é preciso saber morar nele. 

Por isso vejo com bons olhos a admissão dos geógrafos das superfícies etéreas. Para os viajantes, os que voam de barriga pra cima, e os que amam, não há ciência como a geografia das superfícies etéreas. Só o amor ou o emprego nos prendem à geografia das superfícies terrestres. Na geografia das superfícies etéreas não há meridianos, estados-nações, latifúndios, rios poluídos, gêiseres secos, vales industriais. Não há sequer geopolítica na geografia das superfícies etéreas. A geografia das superfícies etéreas não se ocupa do amor de revoluções utópicas. Ela se ocupa do estudo dos braços que se cruzam como rios e dos vulcões que se erguem como monumentos (capazes de destruir todos os outros, ocos).



 * Carhuasanta é uma das nascentes do Rio Amazonas, localizada no Peru.