quinta-feira, 14 de junho de 2012

#72 - Oito





Em algum momento da vida é preciso construir uma casa que desabe na primeira tempestade. Uma janela que emoldure paisagens livres de outras janelas num raio de 8 léguas. Um bairro inteiro de descaminhos, pra perder-se e chegar 8 horas atrasado nos seus compromissos. Construir uma poesia que se estilhace como um vidro atingido por uma pedra com ódios juvenis, e que os cacos sejam bando de passarinhos, que se perdem no horizonte, sem nunca serem lidos. Em algum momento da vida é preciso construir um escorregão, um mergulho desajeitado do mais alto trampolim, um auto-empurrão anônimo. Fingir um muque sem fazer força alguma. Perder a corrida na praia com os amigos porque lembrou gargalhadamente de como você se parece idiota quando deixa visível todo aquele esforço que desprende pra sempre vencer. Em algum momento da vida é preciso construir uma casa sem teto algum. Uma janela que emoldure paisagens presas de infinitas janelas num raio mínimo de 8 centímetros. Se é impossível nas engenharias terrenas, invente-as nas engenharias etéreas. Destapar alguns bueiros de vez em quando e andar somente olhando pros seus sonhos. Em algum momento da vida é preciso construir um mapa que não leve a lugar algum a não ser ele próprio. Um mapa maior e mais real que a cidade que ele representa. É preciso construir uma derrota ilustre.

Tudo com a mais profunda e pessimista alegria. Mas é preciso construir. Construir do baixio lodoso da sua pequenitude.