segunda-feira, 24 de outubro de 2011

# 65 - Oak Dreams


Para meu avô, Edison.

A morte é um tronco grande de carvalho que vovô derrubou quando eu era menino. Um tronco grande que depois de morto morou seco e imóvel no meio do jardim, abraçando-se à vida úmida ainda pulsante das flores e da grama incólume. Um tronco de carvalho que ao longo do tempo abrigou cupins, formigas e alguns esquilos no inverno gelado de 1932.  Foi dele que vovô retirou a madeira para o atinado caixão do biso Guillermo, que veio a falecer antes que nascesse minha Aurora. A morte é um tronco grande de carvalho que vovô derrubou quando eu era menino. Um tronco grande do qual papai fez aquele banco em que sentamos todos os sete, eu, ele, mamãe, Lucas, Rudolph, Zoca, e a prima Nina que se aconchegou do meu lado (com seus shorts rosado curtíssimo) numa foto tirada pelo Denver num verão antes da Guerra. Um tronco grande de carvalho do qual eu (querendo arremedar as habilidades da marcenaria de vovô e papai) fiz desconfortáveis assentos para o balanço de Cora. Ela que no auge da sua infância lançava-se ao vento sem que seus cabelos soubessem algo sobre os bombardeios. A morte é um tronco grande de carvalho que apodreceu durante décadas no velho terreno do Sul que herdei de papai. Uma terra fértil, e que me deu o sustento de filhos e netos, terra dos pungentes carvalhos robles, que sob suas sombras, derrubei-me numa tarde de outono e nunca mais levantei.   



                                         Dave Matthews - Gravedigger (Willie Nelson)