segunda-feira, 26 de setembro de 2011

#64 - Poente

                                                                                                Diego Rivera, Puesta del Sol, 1956


Na vida, quem não acontece, anoitece. Eu não fui lido do outro lado por isso deitarei o sol aqui mesmo desse. Azar da sombra de alguém que me lesse. Deitarei o sol do mesmo lado que ele acorda. Se isso faz de mim um deus, ou um demônio, não sei, não importa. Sei que sou um homem incompleto, mas que transborda.

A vida engana. Às vezes a mão engasga e a boca esgana. A morte é sorte, o azar é zamba. A voragem de Deus te cega, e a coragem do diabo nega o Sol que lhe tampa. O ócio emprega. O negócio grampa. A perda une, a vitória pune. E na vitrola a canção é fúnebre e o silêncio é o que zune ensurdecendo homens impunes. A vida implume. A morsa é mansa, mas n’água avança contra a bonança. A vida cansa. Às vezes porque a dança já não é dança. Porque a moça almoça o prato dos dias frios. E o poema empoça. Já não é rio. Nem de Janeiro a março, abril. A prostituta é quem mais luta contra a mãe puta que lhe pariu. E na labuta, alguém comanda. E no descanso, a propaganda. Que vida bosta por estas bandas. E a perna grossa da moça roça uma na outra enquanto ela anda. E nada muda. A vida passa. O tempo gruda. Que fique a praça, que fique a gente. Naquela greve. Que fique a gente. Naquela neve. E o never change, e o never coming. Oh E.E. Cummings, quis ser poeta, mas sou poente.

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