terça-feira, 10 de maio de 2011

#59 - Muybridge

                Muybridge Race Horse Animated. (Uma das experiências de Eadweard J. Muybridge, fotógrafo inglês, inventor do Zoopraxiscópio, da película de celulóide e um dos precursores do cinema)
I
Sôfregos vocábulos 
            em 
Lôbregos estábulos
Cavalos resvalos não correm
No páreo
Dormem mudos com aquela excentricidade alteada
E sonham com pégasus voando acima
Dos chapéus panamás.
Enquanto o poema relincha afaz
Na respiração do thoroughbred vencedor
E se cala num silêncio marinho de moças
Comendo ananás
De vestidos verde oliva a espera do jóquei campeão
Sob o vitorioso clamor
Da êmula e acrimoniosa multidão 

II
Sobre eqüinos pastando numa relva dançarina
Sobre eqüidistantes trilhos abandonados
Sobre esquis descendo glaciais colinas
Sobre esquinas apertadas da álgida Belgrado

Apóiam-se as minhas pernas invisíveis.
Enquanto as pernas do mundo pisoteiam meu léxico paralítico.

Mas com o destino de um cavalo selvagem ainda não montado,
O poema inicia seu caminho
Fremindo dorsais
De aleijados.

III
Monta o potro negro lá fora 
E beba a água lancinante
Da tua coragem
Tome atenção às tuas natações internas
E anote as exterioridades
Como um pensamento quando esbarra 
Num cajaleó1 no ar e funde o céu e o mar
Num azul excelso.

Deixo para ti 
A ponta da lança nos olhos
E um buquê de broquel.

Não vou, minha vida
Eu fiquei aqui
Preciso repartir-me em múltiplas partidas
Não só naquela que levou a ti

A gangrena púrpura da perna do homem cansou de inflamar
E secou-se numa paisagem constringente
Numa caatinga vazia de acepções.
Meu pai não anda faz dois anos
E eu deixei minha poesia nas pernas de um viajante vernante

Não há palavras para ti
Há um deserto branco e austero
Para que descubra as despedidas.

1- Peixe-voador que habita o nordeste brasileiro. 

4 comentários:

  1. QUERIDO!

    diferente dos outros poemas, esse me deu um poquinho de trabalho na "apropriação" ...é diferente pra mim, tem uma tal métrica antiga, pq tem uma dor antiga, chega-se ao final assim - voltando ao começo da dor.
    MAS É SIMPLESMENTE BOM! como se bruno fosse um cavaleiro-poeta-medieval-deprê. E encontra forças pra escrever, então

    arriba desse cavalo de papel e com a caneta, continue nos alimentando a alma! Ainda pedirei um autógrafo, a livraria cultura vai ter que engulir!

    bjs BEL - envelhecendo pra ser a primeira da fila!!!!

    ResponderExcluir
  2. é muita injustiça querer que a gente leia esse poema na tela...li saltando, mas vou ser mais decente e imprimir para ler e entender o que esse poema tem para me dizer...coisas assim tem que ler como antigamente. mas numa leitura rápida eu gostei porque sua poesia está cada vez mais consistente e pungente...não vou ficar analisando aqui por que não tenho competência pra isso...mas dá gosto ler seus poemas

    ResponderExcluir
  3. A imagem do muybridge me fez pensar na hora no jockey perdido do Magritte. Acho que isso influenciou muito minha leitura.

    A corrida acabou e ficaram só uniforme (o que faz a gente ver o jockey no homem) e a vontade de conduzir o animal, competir, mais do que vencer.

    Quanto mais lia o poema, mais a floresta do Magritte (talvez como seu deserto) ficava maior. Fiquei no fim sem saber se tal qual o jockey fora do páreo, eu estava perdida - ou livre.

    ResponderExcluir