quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

#57 - Lista de Desprendimentos Fluídicos

À Manoel, que talvez nunca me lerá, mas arvorece dentro de mim.

1- Manoel de Barros extrai poemas do barro, mas também de carcaças de carros.

2- De quem mora em Sapopemba, só a chuva lembra.

3- Escrever é submergir vitórias-régias e deixar que elas retornem naturalmente a superfície com o tempo cerúleo do esquecimento.

4- O poeta é uma exceção com açucenas.

5- É naturalmente mais seco o tempo-de-dentro do casco do caramujo do que o tempo-de-fora que umedece as paredes nas quais ele se gruda.

6- Arvorecer em apartamentos estreitos e frios da Santa Cecília implica em galhos satisfeitos em tocar o rosa plúmbeo do céu de São Paulo.

7- Horizontes de prédios não prendem o tédio, prendem horizontes.

8- É preciso em algum momento da vida construir janelas que emoldurem paisagens onde não haja outras janelas num raio de 3 léguas.

9- A morte é um tronco grande de carvalho que vovô derrubou quando eu era menino, e que nos ensina até hoje a durar sob o limo.

10- O mar, assim como o amor só é apreensível senão uma parte, redil.

11- Pra solucionar um problema tem que conhecer sua cauda.

12- O Verbo está senão nestas páginas zebrinas, que disparam livres de predadoras sinas, mas num pampa acerbo.

13- Conceber um substantivo abstrato implica em adjetivar concretos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

#56 - Azul e Trêmulo.


Eu no Cenote Sagrado de Ik Kil no México.

Sete homens esguios saem em fila do poema, eles são quase azuis, mon amour. São os leitores nunca lidos que esqueci no Mar de Savu. Meu Timor é um tumor tímido que arrecifa dentro de mim. Não me basta mais moças lindas e encabulados vocábulos sem fim. Quero mais filhos, mais folhas, mais fôlego, mais sins.

Beba os versos da minha soberba, moça bêbada de universos e reminiscências. Somos nós e os nós que damos que nos sustentam ante todas as ciências. Percamos paisagens distantes de climas amenos. Eu sempre sei um pouco mais do que antes, mas finjo saber menos. Pois escrevi 3 mil poemas e virei um demônio, minha flor. Ainda que tenha um metro e setenta: eu sou o amor!

Um rapaz afunda no submerso reino das palavras e fica azul, senhoril. Era eu com meus 16 anos mergulhando no Cenote Sagrado de Ik Kil. O deus Hunahpú contou-me da terrível solidão do escritor, e eu lhes avisei, mas ninguém ouviu. Meu México vai além do meu léxico e deságua na voz azul de um rio. Como o mar, o amor é apreensível senão uma parte, redil.