sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

#55 - Balada do Leste


                             Melro-preto morto. Campo dos Melros-Pretos é uma das etimologias do nome Kosovo. 

Da periferia da poesia ligo a minha motoneta/ vejo nascer a rosa no cimento, e a palavra no livramento/ quando empunho a minha caneta/ “The word like a sword” que rasga a estrada como uma espada reivindicando uma república como faz o ETA/ Enquanto que Platão queria expulsar da sua os poetas/ para que a beleza se submeta/ à verdade do filósofo; queria eu como o lisboeta/ Fernando Pessoa: povoar de poetas o planeta... ... Dou a partida sobre uma estrada de campânulas no Leste Europeu. Enquanto a imaginação do motoboy que liga sua CG na Zona Leste, em São Matheus/ restringe-se em como vai entregar os documentos, pagar as contas e comprar o remédio pro moleque que já nasceu/ Contaram-me que hoje em Kosovo uma família inteira desapareceu/ Na luz de uma explosão que apaga nos olhos teus... ... Ao fundo soam os latidos de cães aflitos/ que falam o único idioma universal, o do grito/ Nessa viagem segura da rima eu transito/ ao passo que o motoboy derrapa no trânsito e morre na Avenida Marechal Tito... “Lutaremos até a morte até que todos sejamos extintos”, gritou Kosovel/ Como o ranger de dobradiças que sou de fronteiriças portas ao léu/ entre uma sonhadora moça eslovena e um degradado bordel/ Entre o inefável, e as perspectivas de um pequeno céu... Estou sozinho no turbilhão de veraneios em praias de Varna/ Ao lado de uma Elisaveta mais moça e que a mais linda beleza encarna/ Estou banhado de um Mar Negro de solidões utópicas/ E um Mar Adriático de multidões distópicas/ E seco de minhas tristes trópicas/ Convalescenças/ Precisava dizer tudo isso em sua presença/ Te dizer assim encharcado/ olhando para seus olhos navais esverdeados/ seguido de um silêncio de uma década de segundos alquebrados... Caninos balcânicos abocanham-me as vizinhanças/ Entre mim e a moça eslava de vespertinas esperanças/ e seus cabelos flamejantes/ moça que não vende suas diferenças, doa seu semblante/ vítreo/ mais impenetrável que o ítrio/ em troca de uma paz manca, acachapada/ de algumas cercas brancas e águias bicéfalas engaioladas/ No retrovisor da motoneta, vejo os últimos cães me perseguindo, alguns são rubros, outros, cinzas. São cães de caça/ Minutos depois já são chamas, os outros, fumaça. Vejo a moça ruiva agachada, com seu colo translúcido e toda uma graça/ ao catar lírios/, algumas petalazinhas grudam nos seus belos cílios/ e atrás dela corre seus dois ou três alvos filhos... De volta à Avenida Marechal Tito, o corpo do homem no chão /Ao lado dele uma moça cujo choro é em vão/ Desacelero a moto para ver o homem, e um cão/ me persegue por alguns segundos, até cansar-se e virar um ponto triste e amarelo/ Mas seu latido me acompanha até Ferraz de Vasconcelos.