terça-feira, 17 de agosto de 2010

#51 - Um Empurrão Anônimo


Para Sylvia Beirute


Feliz é ela. Feita de ventania. E eu que sou feito de favela? Favela que por ti desabaria.

-->Evito abocanhar verdades gordurosas pela manhã Para não nausear minhas liberdades vespertinas.

Mas o estudo e vivência da semiótica do empurrão
Proporcionou-me ânsias de vômitos constantes
E um ou outros delírios e manias de perseguição.

Eles querem me derrubar.

(Carol Ledoux me disse que enquanto a ponta dos dedos não me tocarem, não preciso me preocupar).

Preciso esquivar-me da janela dos apartamentos estreitos
Bancados pela família de Mário de Sá Carneiro
Antes que eu arvoreça por aqui.
E que meus galhos contentem-se com o rosa plúmbeo
Do amanhecer brutal de São Paulo.

Prefiro que me empurrem direito, em vez de me pegar pelo braço
Odeio que me peguem pelo braço.

A síntese do trabalho assalariado alienado
Hoje se constrói no metrô da Estação Barra Funda ao Jabaquara às 18 horas
O assunto recorrente em quase todas as conversas apertadas
durante o trajeto do avião rastejante do trabalhador
É falar mal do patrão e do companheiro que lhe passou no páreo.
E o empurra-empurra na Sé para encontrar lugares no vagão é mais vigoroso que o monumento de Brecheret que exalta aqueles velhos paulistas que abriram caminhos na porrada.

Mas deixo de lado todas essas rasteiras e empurrões próprios dos liberalismos escarnecedores contemporâneos
Ao pressintir escadarias e barrancos onde não se tem.

E repito-lhe:

Eles querem me derrubar.
Eles fatidicamente querem me derrubar.
Entortam os andaimes das minhas palavras.
Mas o que eles não sabem
O que eles insistem em não saber

É que já sou um barraco desabando.

Não abrigo mais nada que não esteja despencando
Ou que despenque assim sempre
                                                          por
                                                                       si
                                                                                mesmo.
Outrora os que trovejaram em cima de mim
Trancaram minhas palavrinhas
No barranco forjado das similitudes da poesia
Esperam hoje ansiosos o meu tão alumiado tombo.

Eles,
que são os espectros slow motion
Dos meus tropeços
Fantasmas de toda verticalidade escorregadiça das relações humanas.

No samba da vertigem que ainda se converte em esperança
Eu despenco irrisoriamente
Com o lar acaramujado nas costas.
Lembro que “Com Cibide aconteceu coisa pior,”
E que Sísifo... se fu... (muito mais).
Mas convalesceu-se na consciência
De que a medida do desprezo supera a do seu destino,
retomando a pedra nos lombos.
O meu projeto, o tenho somente quando confio
que enquanto não esbarro, me desencontro
           
              que enquanto não esbarro, me desencontro.

Enquanto você transita em suavenidas
Meu coração necessita de trajetos helicoidais
Necessita enveredar absurdos inundáveis,
quer dizer, imundáveis.

No contra-fluxo da enchente, ressuscito com uma aguerreação emergencial:

UMA SUCURI JUGULAR QUE ENGOLE O JUGO DO NÃO-LUGAR

Eu tenho um monte de palavras que (eu) não sei onde brotei.

Só assim de barraco me converto a campo de desabrigados de aluviões
E em seguida a abrigo anti-bombas libanês
Onde uma família já se senta
Para um jantar farto.

(A profissão fictícia do poema é soterrada pela físsil e imbecil realidade de um míssil com a difícil missão de acelerar a fossilização como memorial al al al).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

#50 - Contrabando poético de mulheres palestinas




Troco hoje minhas palavras pela verdadeira poesia, a de passeio, das israelenses Illana Hammermann e Daphne Banai. Ambas caminharam, além do flaneur baudelaireano, numa marcha comtemplativa pela liberdade, ao contrabandearem mulheres palestinas para Tel Aviv para que conhecessem pela primeira vez o mar.

"Quando uma lei é desumana e racista, desobedecer torna-se uma obrigação moral", disse Daphne. E completou: "Senti uma sensação de libertação naquele dia [..] "A ocupação e o enclausuramento da população palestina em enclaves na Cisjordânia me fazem sentir em uma prisão".

Troco minhas melancolias pela felicidade de Daphne, por sua libertação, sua greve em si mesma, sua rebelião contra a Lei. Ao adentrar a porta da Lei, sem medo de quem a guardava - como relutou por toda a vida o personagem de Kafka - Daphne e as mulheres palestinas (as últimas clandestinas) não só promoveram um grande ato político não violento contra o preconceito, a guerra, e a dominação humana; mas antes um ato digno, e portanto, belo. Se a saída para o Mar é uma das grandes causas dessa infindável guerra, por que o mesmo Mar não pode ser uma saída para a paz, mesmo que instantânea e sentida antes aqui dentro?

Faço um voto de silêncio poético para transmitir meu respeito e admiração por essas mulheres, e deixo falar com muito mais propriedade, a poetisa jordana-estadunidense Suheir Hammad, que declama abaixo um belo poema contra a ocupação da Palestina: