segunda-feira, 21 de junho de 2010

#46 - Sobre Saramago, mais ainda sobre o esquecimento.

 
     Escrito no tecido da burca


Eis a notícia que todos já receberam: José Saramago, grande romancista, comunista de lealdade inconsumível e único Nobel da Língua Portuguesa, partiu para a imortalidade dia 18 de junho último. Ele afirmava que todas as memórias são falsas, pois são sempre recriáveis, e confundidas com os nossos sonhos; diferentemente de Mário Benedetti, grande poeta uruguaio, também morto recentemente, há pouco mais de um ano, que elaborava tal pensamento, partindo por dizer que não havia esquecimento e, portanto, o que nos sobra é tão somente a memória.  

José Saramago alcançou sucesso literário principalmente a partir de sua obra Memorial do Convento, uma de tantas onde ele propôs-se a recriar mais honestamente falsas memórias da História. Noutras ele deu histórias necessárias a História, procurando responder em criativas parábolas, a pergunta: O que aconteceria se...?  Ele tinha pais analfabetos, foi serralheiro mecânico, funcionário público e hoje é considerado um dos maiores romancistas do século XX.

A desgastada imagem da florzinha que se ergue no meio de escombros não inaugurará jardins de verde-esperança. Mas será a que terá lugar guardado na nossa lembrança, no meio do tumulto. Eis o que significa a etimologia do termo “saramago”, uma florzinha silvestre de poucas pétalas que nasce e cresce pelos cantos, quase esquecida.

II
Agora sim. Posso prosseguir com outros assuntos, embora ainda mais antigos, acredito que menos consumidos:

Devo dar-lhes a notícia de que o embaixador e poeta Geraldo Holanda Cavalcanti, novo imortal eleito para Academia Brasileira de Letras em junho deste ano, é casado com Dirce de Assis, filha de Dilermando de Assis, homem que matou o imortal Euclides da Cunha e anos mais tarde, seu filho Euclides da Cunha Filho, o Quidinho.

Devo relembrar-lhes que Dilermando de Assis alvejou certeiramente Euclides pai em reação a tiroteio iniciado pelo autor de Os Sertões, que tinha seus motivos passionais, e também depois só abateu primorosamente Euclides Filho, após levar um tiro nas costas, anos mais tarde, do garoto que havia jurado vingança.

É importante ressaltar que Dilermando cavou sua imortalidade como escritor, primeiro sobrevivendo a dois tiroteios, depois narrando poeticamente tal tragédia que se sucedeu no bairro da Piedade, na Estrada Real da Santa Cruz há cento e um anos atrás.

O tiroteio com Euclides da Cunha fez o sucesso de jornais da época como O Mozambinho, que venderam mais que os livros de Dilermando. E ganhou as telas em minissérie adaptada em 1990, na qual o alvejado por Dilermando era o ator Tarcísio Meira.

Bem, como um bom galã canastrão,Tarcísio Meira descende por parte de pai, da aristocracia mineira, havendo sido seu tataravô paterno o tenente-coronel Antônio Joaquim Pereira de Magalhães, e por essa linhagem tem consanguinidade com o Mártir da Independência do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha chamado de...
 
Tiradentes. Segundo informações secretas da maçonaria – que teve como ilustre membro e crítico da cisão dos anos 40, nada menos que o nosso Dilermando Cândido de Assis – Tiradentes, embora imortalizado na História e no mito popular, não fora morto pelos portugueses e sim embarcado pelos maçons num navio para Angola, deixando a forca para um moribundo, que no seu lugar perdeu não só a vida.  

III
Hoje no Islã ainda são muitos os que perdem a vida enforcados. Muitos deles pagam o preço por desrespeitarem leis religiosas como as fatwas. No Islamismo, a fatwa é um pronunciamento emitido por um líder religioso que procura responder satisfatoriamente, segundo as leis islâmicas, a alguma questão perturbadora. Recentemente Abdul-Rahman Al-Barrak, sacerdote islâmico da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa que declarava como infiel (portanto, punível com a morte) toda pessoa que promover a mistura de homens e mulheres no mesmo ambiente.  

Al-Barrak foi duramente combatido pela poetisa saudita Hissa Hilal, que por trás da escuridão da burca, gritou versos contra o fundamentalismo islâmico. Hilal, anteriormente desconhecida do público, era uma dona de casa de 43 anos, que se projetou ganhando o terceiro lugar de um reality show dos Emirados Árabes, chamado Million´s Poet, uma espécie de show de calouros da poesia. Hissa Hilal foi aprovada por um júri composto inteiramente por homens bigodudos e levou um prêmio de mais de um milhão de reais. Embora a decisão final sobre o dinheiro seja do seu marido, ela disse que pretende procurar tratamento para a filha autista e comprar uma casa nova.

Poderia se afirmar que a imagem da poetisa Hissa Hilal subindo no palco, quase inteiramente coberta pela túnica negra, recitando poemas afirmando a memória das mulheres, parecia ser digno de ser a própria Morte carregando aqueles que nos esquecem em escombros. Fim?

Um comentário:

  1. Estou cometendo um crime aqui: respondendo à sua postagem em pleno horário de trabalho. Mas tudo bem, correrei esse risco. Há tempos que recebo suas crônicas e pensamentos e não tenho tido muito tempo para lê-los - principalmente na tela, onde a leitura fica ainda mais prejudicada. Bem, sou seu amigo e tenho uma "obrigação moral" (olha só o termo que eu fui usar) de comentar. Primeiro: nada mais provocador e típico de você nos fazer parar para ler essa crônica um tanto elástica. Você desrespeita propositalmente a máxima da web, que são textos enxutos e que vão direto ao ponto. Queremos agilidade e você nos dá um texto que serve como hiato diante da correria. Tudo bem, eu paro pra ler... Esse é o seu forte, ou seja, sua capacidade infinita de sempre articular ideias, pensamentos e de ser um filósofo inspirado em tudo o que escreve - é claro que digo isso tudo no âmbito da crônica, do texto rápido. Você escreve muito bem em todas as plataformas - web, papel, pergaminho, pedra...seu maldito! Tenho uma admiração inconteste dessa sua redação inesgotável, dessa sua capacidade de ser prolífico com textos e pensamentos. Concordo com o que você escreveu, mas a primeira parte, que fala do Saramago foi a que mais me interessou. As outras partes me pareceram confusas. Essa minha cabeça de mercado e de metrópole não processou bem o sentido das suas palavras. Continue escrevendo, para meu deleite e dos demais amigos. Não desista do blog - web é pura insistência e alimentação diária de conteúdo novo. Portanto, está dado o recado.

    Abs.

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