terça-feira, 29 de junho de 2010

#47 - Ócio

Fóssil de Flor

Ócio
Fóssil
Fuço. Livre num belo jardim
Tusso
Insosso
Insone. Sem levantar de mim

Enquanto pulula
A poeira que se acumula
Do tempo ido doído
Belo acúmulo florido
que me esvazia
Pra brotar o olvido
Em vaso ornado
De nostalgia.

Se é no ócio que se cria
No ócio sem companhia
Esfacelamo-nos ao meio dia
Quando o sol incide
Iluminando a covardia

E o revide é de quem me leria
Pois não há sócio nesse negócio
De poesia
E só as palavras larvas que emergem
Me lavrariam
Só as palavras que emprego
Me desempregariam


segunda-feira, 21 de junho de 2010

#46 - Sobre Saramago, mais ainda sobre o esquecimento.

 
     Escrito no tecido da burca


Eis a notícia que todos já receberam: José Saramago, grande romancista, comunista de lealdade inconsumível e único Nobel da Língua Portuguesa, partiu para a imortalidade dia 18 de junho último. Ele afirmava que todas as memórias são falsas, pois são sempre recriáveis, e confundidas com os nossos sonhos; diferentemente de Mário Benedetti, grande poeta uruguaio, também morto recentemente, há pouco mais de um ano, que elaborava tal pensamento, partindo por dizer que não havia esquecimento e, portanto, o que nos sobra é tão somente a memória.  

José Saramago alcançou sucesso literário principalmente a partir de sua obra Memorial do Convento, uma de tantas onde ele propôs-se a recriar mais honestamente falsas memórias da História. Noutras ele deu histórias necessárias a História, procurando responder em criativas parábolas, a pergunta: O que aconteceria se...?  Ele tinha pais analfabetos, foi serralheiro mecânico, funcionário público e hoje é considerado um dos maiores romancistas do século XX.

A desgastada imagem da florzinha que se ergue no meio de escombros não inaugurará jardins de verde-esperança. Mas será a que terá lugar guardado na nossa lembrança, no meio do tumulto. Eis o que significa a etimologia do termo “saramago”, uma florzinha silvestre de poucas pétalas que nasce e cresce pelos cantos, quase esquecida.

II
Agora sim. Posso prosseguir com outros assuntos, embora ainda mais antigos, acredito que menos consumidos:

Devo dar-lhes a notícia de que o embaixador e poeta Geraldo Holanda Cavalcanti, novo imortal eleito para Academia Brasileira de Letras em junho deste ano, é casado com Dirce de Assis, filha de Dilermando de Assis, homem que matou o imortal Euclides da Cunha e anos mais tarde, seu filho Euclides da Cunha Filho, o Quidinho.

Devo relembrar-lhes que Dilermando de Assis alvejou certeiramente Euclides pai em reação a tiroteio iniciado pelo autor de Os Sertões, que tinha seus motivos passionais, e também depois só abateu primorosamente Euclides Filho, após levar um tiro nas costas, anos mais tarde, do garoto que havia jurado vingança.

É importante ressaltar que Dilermando cavou sua imortalidade como escritor, primeiro sobrevivendo a dois tiroteios, depois narrando poeticamente tal tragédia que se sucedeu no bairro da Piedade, na Estrada Real da Santa Cruz há cento e um anos atrás.

O tiroteio com Euclides da Cunha fez o sucesso de jornais da época como O Mozambinho, que venderam mais que os livros de Dilermando. E ganhou as telas em minissérie adaptada em 1990, na qual o alvejado por Dilermando era o ator Tarcísio Meira.

Bem, como um bom galã canastrão,Tarcísio Meira descende por parte de pai, da aristocracia mineira, havendo sido seu tataravô paterno o tenente-coronel Antônio Joaquim Pereira de Magalhães, e por essa linhagem tem consanguinidade com o Mártir da Independência do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha chamado de...
 
Tiradentes. Segundo informações secretas da maçonaria – que teve como ilustre membro e crítico da cisão dos anos 40, nada menos que o nosso Dilermando Cândido de Assis – Tiradentes, embora imortalizado na História e no mito popular, não fora morto pelos portugueses e sim embarcado pelos maçons num navio para Angola, deixando a forca para um moribundo, que no seu lugar perdeu não só a vida.  

III
Hoje no Islã ainda são muitos os que perdem a vida enforcados. Muitos deles pagam o preço por desrespeitarem leis religiosas como as fatwas. No Islamismo, a fatwa é um pronunciamento emitido por um líder religioso que procura responder satisfatoriamente, segundo as leis islâmicas, a alguma questão perturbadora. Recentemente Abdul-Rahman Al-Barrak, sacerdote islâmico da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa que declarava como infiel (portanto, punível com a morte) toda pessoa que promover a mistura de homens e mulheres no mesmo ambiente.  

Al-Barrak foi duramente combatido pela poetisa saudita Hissa Hilal, que por trás da escuridão da burca, gritou versos contra o fundamentalismo islâmico. Hilal, anteriormente desconhecida do público, era uma dona de casa de 43 anos, que se projetou ganhando o terceiro lugar de um reality show dos Emirados Árabes, chamado Million´s Poet, uma espécie de show de calouros da poesia. Hissa Hilal foi aprovada por um júri composto inteiramente por homens bigodudos e levou um prêmio de mais de um milhão de reais. Embora a decisão final sobre o dinheiro seja do seu marido, ela disse que pretende procurar tratamento para a filha autista e comprar uma casa nova.

Poderia se afirmar que a imagem da poetisa Hissa Hilal subindo no palco, quase inteiramente coberta pela túnica negra, recitando poemas afirmando a memória das mulheres, parecia ser digno de ser a própria Morte carregando aqueles que nos esquecem em escombros. Fim?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

#45 - Arenas Hemingway

Prisão de El Morro, Cuba.

Ernest, devo confessar-te que também tenho
minhas grandes pretensões como escritor.

Contudo não passei uma temporada livre na Europa
Poderia confiar-te que tampouco,
Uma estadia preso em El Morro.
Isso me leva a duas lições:

A primeira me ensina a inventar a viagem aqui
E romper fronteiras das mais confinadas estrangeiridades
O que leva a abaloar-me em mundos ainda mais respeitáveis

Mas a segunda diz-me sobre a miséria
De ter que esquecer pelos ares
Fugas espetaculares.

Não basta visitar o que em mim há de Ushuaya ao México
Se um Reinaldo Arenas acordar engaiolado no meu léxico.

Enfim,
Reservo-me a abrir e fechar janelas aos poucos
(Enquanto que o afogado sou eu)
E ensaiar tudo debruçado no parapeito.
Tuas viagens, os mares,
Os mares
E as prisões de Reinaldo,
Mas continuo sufocado dentro da minha própria pequenitude
Receosa de tornar-se grande como teu Peixe-Espada ou como teu Velho
Para depois terminar pescada por qualquer um.

Minha pequenitude, furiosa e sequiosa como teu touro bufante em Pamplona
Mas com o eterno medo da tirânica multidão.