sexta-feira, 12 de março de 2010

#42 - Clandestinidade


A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Miguel Littín, do seu exílio, do passaporte falso, do idioma estrangeiro, da Ditadura Latino Americana.

E do cinema, claro, do cinema.

A clandestinidade que carrego não é contada por Garcia Márquez.

A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Bacanaço, por entre mesas de bilhar vermelhas, trambiques, caçapas, e incertos caminhos certeiros, determinados por uma bola branca encardida, mas poderosa.

Não, nem tampouco o papo reto de João Antônio para narrá-la visceralmente.

(Creio que não preciso citar que tal clandestinidade não me tarja em nenhum movimento estético glamurizado com denominações “marginais”, o buraco é mais embaixo e incaçapável, my bróder...)

A clandestinidade que carrego é metáfora vencida, é despoticamente despoetizante, é vida real, lei prestes a ser aprovada em primeira instância, é alienação quase comemorável.

A clandestinidade que carrego não  é subversiva, tampouco um ato heróico. A clandestinidade que carrego é um mero ato digno.

Contra mim mesmo, e minhas vaidades de zapatismos emperiquetados.

A clandestinidade que carrego não é estrangeira aqui como em toda parte. Pois alguns são bem mais estrangeiros que outros. Alguns optam por estrangeiridades em troca de um pouco de paz, em vez de aceitar identidades extenuantes. 

A clandestinidade que carrego não carrega nada. Não tem bagagens, botes, Uzis, souvenirs.

A clandestinidade que carrego veste a minha alma de uma horizontalidade que impregna em todos os meus percursos, em todos os meus empreendimentos, em todos os meus encontros, com uma tensão própria de uma corda bamba onde um equilibrista desafia a soberania da morte e do jogador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário