terça-feira, 16 de março de 2010

#44 - No More Superfluous Complaints



A Kenule Saro Wiwa, poeta nigeriano,  assassinado pela Ditadura, devido sua grande luta contra as petrolíferas.

Ken Saro Wiwa
Descanse dentro de mim
Enquanto escrevo esta agrura
Embalado sob as águas do Níger
Descontaminadas do óleo lutuoso
Da usura
Lave minhas mãos
E minhas estúpidas fúrias
Dessa tinta de sofreguidão
E de lamúrias.

sexta-feira, 12 de março de 2010

#43 - Poema do Fim da Linha



Meu pai, 1955.

Não adianta pegar na minha mão senhor gerente. Numas vezes saem asas, noutras letras ferventes. Sou sozinho, edito eu mesmo meus livros sabia? Mas que maçada quererem que eu seja da Companhia!

Porque sou vil, vil no sentido mais infame e mesquinho da minha Villelice. Se esta virtude existisse. Contumaz e soturno, neto de Renato, filho de Renato, renasço-me Bruno. Mais um Villela que não quer vencer de bolso cheio. Não se voa pesado, nem se anda guiado pelos que tem receio.

Vamos leve e soltos na trilha, meu pai, com sorte. A ansiedade do poeta é pela paixão, não pela morte. Eles pensam que mandam, controlam, e que são mais fortes. A viagem que planejávamos pro Sul é aqui e não há quem aborte. O Sul de toda a mesquinharia do mundo tornou-se o meu norte. No trânsito, no trapo, no trampo, no trato, o corte. Mas enquanto durar minha fome, cantarei teu nome até que o tempo me entorte.


#42 - Clandestinidade


A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Miguel Littín, do seu exílio, do passaporte falso, do idioma estrangeiro, da Ditadura Latino Americana.

E do cinema, claro, do cinema.

A clandestinidade que carrego não é contada por Garcia Márquez.

A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Bacanaço, por entre mesas de bilhar vermelhas, trambiques, caçapas, e incertos caminhos certeiros, determinados por uma bola branca encardida, mas poderosa.

Não, nem tampouco o papo reto de João Antônio para narrá-la visceralmente.

(Creio que não preciso citar que tal clandestinidade não me tarja em nenhum movimento estético glamurizado com denominações “marginais”, o buraco é mais embaixo e incaçapável, my bróder...)

A clandestinidade que carrego é metáfora vencida, é despoticamente despoetizante, é vida real, lei prestes a ser aprovada em primeira instância, é alienação quase comemorável.

A clandestinidade que carrego não  é subversiva, tampouco um ato heróico. A clandestinidade que carrego é um mero ato digno.

Contra mim mesmo, e minhas vaidades de zapatismos emperiquetados.

A clandestinidade que carrego não é estrangeira aqui como em toda parte. Pois alguns são bem mais estrangeiros que outros. Alguns optam por estrangeiridades em troca de um pouco de paz, em vez de aceitar identidades extenuantes. 

A clandestinidade que carrego não carrega nada. Não tem bagagens, botes, Uzis, souvenirs.

A clandestinidade que carrego veste a minha alma de uma horizontalidade que impregna em todos os meus percursos, em todos os meus empreendimentos, em todos os meus encontros, com uma tensão própria de uma corda bamba onde um equilibrista desafia a soberania da morte e do jogador.

terça-feira, 2 de março de 2010

# 41 - Hôtel Méduse

















A ansiedade do poeta é pela paixão, não pela morte.
(Fragmento do Poema do Fim da Linha, 2010)

Meu nome é Bruno e vou direto ao assunto: eu sou o assunto. As palavras me elegeram. Se eu não terminar em Edmond Jabès (procure saber quem é) terminarei em ti. Quem é? - você dirá com seu vestido amarelo fusco, quando eu tocar na sua porta. 

Tive amores e só. Sou um homem dos paletós esfumaçados da alteridade. Abra a porta e me receba com um beijo vindouro. Passemos juntos sob tempestades de areia de letras alheias, enquanto nosso poema é uma paisagem intacta e destemida das nossas forças. Enquanto teu silêncio é o calabouço de moços líquidos esperando a forca. Ocas similitudes com paisagismos bestas. Faltou ímpeto a Ivana que não leu meu poema aos onze, talvez não teria escrito outros. 

Estou dentro do apartamento imenso onde você existe e eu extrapolo, mesmo diante da sua fortuna e colonizações bravias na África meridional. O sol incide sobre meu sapato que balança enquanto a observo intacta e incorrigível como a equação que orienta a fecundação das flores. A sombra do meu pé projeta-se enormemente na parede e a minha mediocridade se alastra tal como um cinema expressionista que não cabe na sala. Você me conta que em festas na Grécia Antiga as taças de vinho tinha a figura da Medusa no centro do copo, para que nunca ficassem vazias. Encheram a minha taça enquanto eu não bebia e de tanto transbordar ela tombou.

Houve um consenso esfumaçado de que seria eu, e o sou. Fugi de catequeses e catacreses, abandonei o luto ao anacoluto por uma prosa oracional que suicidei em existências passadas, desde que as palavras me elegeram. Releve os degraus desnecessários do texto, pois nada de belo que tu lerás até o ponto final deixará de entrecruzar na intraduzível rebelião contra as palavras, peleja que fez nascer em mim uma rabugentice elegante. Escher esquece-se ao subir as escadarias espirais do Hôtel Méduse em Bruxelas para encontrar sua amante. Nas paredes estão escritos nomes de paixões esquecidas e não há ilusões de perspectiva, pois os caminhos levam ao pueril do amor. Fundei sindicatos onde só sobraram eu. Fomentei piquetes e conluios contra advogados adverbiais que não defendem mais a causa. Se quiser entrar nessa comigo, concentre-se na rebelião. Releve a rabugentice. Entre o Muro das Lamentações e o que separa Israel da Palestina, prefira aquele que sendo feito de letras lhe oferece tijolos inefáveis. Não deixe que as palavras empalhem seus subterfúgios (não faça como eu, meu amor, você dura toda a eternidade sob este vestido amarelo, oh como dura!). 

Pediram-me para eu ser alguém. Para eu arrumar um emprego que me cause constipação. Ou você escreve poesia, ou trabalha 10 horas por dia. Ou então faz poemas dos venenos da verticalidade inverossímil das imbecilidades corporativas. Foram-se 10 anos querendo criar coletivamente, sequestrei Hermes Trismegisto, mas teimam em dizer que tenho que ser só o Bruno. Ser só um. Mas só o Bruno não vence a luta, vide o Giordano.
Ah... Eu fiquei sozinho. E quem fica sozinho por aqui tem que aturar a Gestapo das palavras. É só eu ameaçar propor um consenso que elas grafam-se depressa com o preto mais forte, para guardar linearmente essa conciliação, no lugar de oferecer-me sua reconhecida transparência cíclica e reflexível.
Meus pais não tocam tuba e não me mandaram passar uma temporada na Shakespeare in Company. Nem por outro lado passei fome o suficiente para agüentar mais de um dia na prisão de El Morro, onde viveu Arenas. Mas Rilke me assegura que a mediocridade da existência cotidiana em nada justifica poesia infame. 
Devo aos meus pais as paredes que tenho, sejam hoje janelas ou muros. Mas não sou poeta por culpa deles, nem os culpo por ser poeta. As janelas que me atiro são de inteira responsabilidade minha. Amei, amo, mas não tive um big romance. Talvez com Ana Cristina César. Se ela me conhecesse, e não tivesse se atirado daquela janela na Rua Tonelero em 1983.
Ano que nasci.
Entre um muro negro, metade inca, metade espanhol que divide os dois povos, eu não sou europeu, nem indígena, nem a mistura que pensava ser Chocano, sou o muro (para pensar em nada, visualize um muro branco. E eu visualizo o muro branco dos seus dentes. Você que não mais me beija, mas ainda insiste em sorrir, com um sorriso que engole o seu rosto). Enquanto Buster Douglas nocauteia Tyson, Oscar Peterson desiste do piano após perder os movimentos das mãos por causa de um derrame. Hoje eu perdi os movimentos dos mares intrínsecos (já não sei se esbarro no muro branco do esquecimento ou no muro branco do teu sorriso). 

A austeridade das palavras me defenderam da Medusa com o espelho dessas musas taciturnas e displicentes, e o meu texto virou uma muralha. Seria mais fácil se soubesse agora de que lado estou. Sei que ainda não do seu. Hoje, vá dormir bem, independentemente dos outros. Chegarei tarde. Deitarei tão longe da sua beleza, mas dentro de ti. Vejo o vestido amarelo dobrado na cadeira, as suas costas alvas e as possibilidades infinitas de rearranjos dos seus cabelos sob o lençol. 
A solidão solidifica a poesia, me dizia a solitária Medusa. E eu respondo:

Não tenho o que dizer-te se não há pra nós um futuro.
Só esse triste e último conselho
De quem te leu do espelho
(Que as pedras do passado transformaram em muro).


 Novembro 2007