domingo, 28 de novembro de 2010

#54 - Divergências entre Eisenstein e Maiakóvski sobre as lutas de touros


Escrevo num tempo fervente, onde adolescentes ainda têm pernas arrancadas por bombas. Escrevo às sombras. De magueys e palmeiras. Contando a Martí que a prisão de Guantánamo é hoje tão famosa quanto sua Guantanamera. Escrevo num tempo vendido, onde os jovens com pernas estão convencidos de que o futuro está em servir na guerra das multinacionais. Ou na paz promovida por seus trabalhos sociais. Jovens vegetarianos, terminantemente contra o assassínio de animais. Abominam touradas, bolsas de couro e a Guerra do Iraque. Mas toureiam sem regras nas bolsas de Dow Jones, Standard & Poor, e Nasdaq. Escrevo num tempo imorredouro. Eisenstein divergia de Maiakóvski quanto à luta de touros. Quanto à outras lutas, convergiam vindouros. Lady Brett em Pamplona, tão fútil e luxuriosa com seus cabelos louros. Mas conhecia belezas maiores que seus diamantes e ouros. Daquelas que fervem aqui dentro num instante. Como quando houve um festival de San Fermin, em mim depois que te vi tão bela, passante. O toureiro venceu, mas o torneiro foi pro abate. Os maiores artistas hoje são Banksy, Francis Alÿs, Usain Bolt e o cineasta chadiano Mahamat. E claro algum haitiano que cantarola sobre escombros sobre seus ombros, e que soterrada, nunca será descoberta sua arte. Enquanto deixo de escrever para ler poemas de uma moça palestina de olhos cor de abacate. Esqueço-me na multidão entre o moscovita e o mascate. Até o touro atrair-se por essas letras cor de escarlate.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

#53 - Um leão por dia



Hey Teddy! Desligue seus laser tags de Roterdã e ligue no Edifício Mercúrio e no São Vito/ com gritos/ de incentivo aos sem teto e seus conflitos./ Très louche/ mas ta na moda falar de autonomia do ponto de vista mapuche/ pois Che virou clichê, michê do capitalismo rouge/ E um leão ruge/ zangado, sampleado junto ao beat box de Felix Zenger sobre uma guitarra flamenga/ Pras fica mais tempo no flow do que fica sem levar gol Walter Zenga/ Enguiço num débil dub de indubitável coloquialidade sem guizo de cascavel/, numa in dub travel coleção de localidades a granel/ Da guerra santa, rouca/ entre o inferno do véu/ e o céu/ da boca./ Escreveram um poema ecológico/ com tinta a base de algas (é lógico)/ nos cascos de tartarugas em extinção/ que viajam décadas sem rugas do Espírito Santo ao Gabão/ E eu sem casco, sou um fiasco/ com minha cor meio branca meio damasco/ meio caucasiano, meio Cacaso/ Onde está aquele poeta basco?/ anarquista/ pra prosseguir com a reconquista/ dos nossos horizontes?/ Desabaram nossas pontes/ Construíram Rodoanéis em cima dos Guaranis/ Passaram o rodo no petróleo das veias dos U´was, que mataram a si próprios, assim como os negros de Zumbi/ Obrigaram os Yámanas a nadar vestidos e eles morreram de tuberculose sem escrever poema romântico algum/ Grito em mapudungum/: Não quero verdades, quero herdades de alimentos cósmicos para meus irmãos dos pagodes daqui às pagodas de Rangum/ Venha jantar um manjar com seu moço, sob uma paisagem turca/ eu com mais de uma hora de almoço, você sem burca/ Ao fundo o Monte Kaçkar, onde podemos acampar sem sair caro/ Mas você prefere me mangiare con gli occhi, como uma leoa tanzaniana sob o Kilimanjaro/ Não quero a beleza/ que seja maior que a compreensão da moça libanesa/ de olhos ônix, que saca meus propósitos/ E sorri con una mitad de sonrisa. Sunrise. Otra Mitad de mi naranja en el tequila/ Te quiero de Tegucigalpa a Barranquilla./ Quero a compreensão, não comprimidos!/ Quero atadas mãos, não corrimãos!/ Quero beijos, não cuspidos!/ Ser mordido, não urdido/ em realidades fugidias/, rugidas por um leão real morto por dia.



video


terça-feira, 14 de setembro de 2010

#52 - Eu escolho liberdade


Eu escolho liberdade
Em vez de flamingos desbotados
Do Zoológico de São Petesburgo.

Quando estiver frustrado escolha Kravchenko
Kravchenko denunciou as coletivizações forçadas
E a fome em massa na Ucrânia durante o stalinismo
E se refugiou em Nova York
Mas quando ele venceu processos contra a URSS
E virou herói nos EUA, ele escolheu a justiça
Em vez da caça as bruxas de Mc Carthy
E foi viver na Bolívia gastando todo o dinheiro do seu Best-Seller
Na organização coletiva de fazendeiros pobres.
Arrasado pelo fracasso de seus esforços,
Ele se recolheu sozinho a sua casa em Nova York
E sabendo que esse era o último e genuíno ato comunista possível
Atirou contra si mesmo no início dos anos 1960.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

#51 - Um Empurrão Anônimo


Para Sylvia Beirute


Feliz é ela. Feita de ventania. E eu que sou feito de favela? Favela que por ti desabaria.

-->Evito abocanhar verdades gordurosas pela manhã Para não nausear minhas liberdades vespertinas.

Mas o estudo e vivência da semiótica do empurrão
Proporcionou-me ânsias de vômitos constantes
E um ou outros delírios e manias de perseguição.

Eles querem me derrubar.

(Carol Ledoux me disse que enquanto a ponta dos dedos não me tocarem, não preciso me preocupar).

Preciso esquivar-me da janela dos apartamentos estreitos
Bancados pela família de Mário de Sá Carneiro
Antes que eu arvoreça por aqui.
E que meus galhos contentem-se com o rosa plúmbeo
Do amanhecer brutal de São Paulo.

Prefiro que me empurrem direito, em vez de me pegar pelo braço
Odeio que me peguem pelo braço.

A síntese do trabalho assalariado alienado
Hoje se constrói no metrô da Estação Barra Funda ao Jabaquara às 18 horas
O assunto recorrente em quase todas as conversas apertadas
durante o trajeto do avião rastejante do trabalhador
É falar mal do patrão e do companheiro que lhe passou no páreo.
E o empurra-empurra na Sé para encontrar lugares no vagão é mais vigoroso que o monumento de Brecheret que exalta aqueles velhos paulistas que abriram caminhos na porrada.

Mas deixo de lado todas essas rasteiras e empurrões próprios dos liberalismos escarnecedores contemporâneos
Ao pressintir escadarias e barrancos onde não se tem.

E repito-lhe:

Eles querem me derrubar.
Eles fatidicamente querem me derrubar.
Entortam os andaimes das minhas palavras.
Mas o que eles não sabem
O que eles insistem em não saber

É que já sou um barraco desabando.

Não abrigo mais nada que não esteja despencando
Ou que despenque assim sempre
                                                          por
                                                                       si
                                                                                mesmo.
Outrora os que trovejaram em cima de mim
Trancaram minhas palavrinhas
No barranco forjado das similitudes da poesia
Esperam hoje ansiosos o meu tão alumiado tombo.

Eles,
que são os espectros slow motion
Dos meus tropeços
Fantasmas de toda verticalidade escorregadiça das relações humanas.

No samba da vertigem que ainda se converte em esperança
Eu despenco irrisoriamente
Com o lar acaramujado nas costas.
Lembro que “Com Cibide aconteceu coisa pior,”
E que Sísifo... se fu... (muito mais).
Mas convalesceu-se na consciência
De que a medida do desprezo supera a do seu destino,
retomando a pedra nos lombos.
O meu projeto, o tenho somente quando confio
que enquanto não esbarro, me desencontro
           
              que enquanto não esbarro, me desencontro.

Enquanto você transita em suavenidas
Meu coração necessita de trajetos helicoidais
Necessita enveredar absurdos inundáveis,
quer dizer, imundáveis.

No contra-fluxo da enchente, ressuscito com uma aguerreação emergencial:

UMA SUCURI JUGULAR QUE ENGOLE O JUGO DO NÃO-LUGAR

Eu tenho um monte de palavras que (eu) não sei onde brotei.

Só assim de barraco me converto a campo de desabrigados de aluviões
E em seguida a abrigo anti-bombas libanês
Onde uma família já se senta
Para um jantar farto.

(A profissão fictícia do poema é soterrada pela físsil e imbecil realidade de um míssil com a difícil missão de acelerar a fossilização como memorial al al al).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

#50 - Contrabando poético de mulheres palestinas




Troco hoje minhas palavras pela verdadeira poesia, a de passeio, das israelenses Illana Hammermann e Daphne Banai. Ambas caminharam, além do flaneur baudelaireano, numa marcha comtemplativa pela liberdade, ao contrabandearem mulheres palestinas para Tel Aviv para que conhecessem pela primeira vez o mar.

"Quando uma lei é desumana e racista, desobedecer torna-se uma obrigação moral", disse Daphne. E completou: "Senti uma sensação de libertação naquele dia [..] "A ocupação e o enclausuramento da população palestina em enclaves na Cisjordânia me fazem sentir em uma prisão".

Troco minhas melancolias pela felicidade de Daphne, por sua libertação, sua greve em si mesma, sua rebelião contra a Lei. Ao adentrar a porta da Lei, sem medo de quem a guardava - como relutou por toda a vida o personagem de Kafka - Daphne e as mulheres palestinas (as últimas clandestinas) não só promoveram um grande ato político não violento contra o preconceito, a guerra, e a dominação humana; mas antes um ato digno, e portanto, belo. Se a saída para o Mar é uma das grandes causas dessa infindável guerra, por que o mesmo Mar não pode ser uma saída para a paz, mesmo que instantânea e sentida antes aqui dentro?

Faço um voto de silêncio poético para transmitir meu respeito e admiração por essas mulheres, e deixo falar com muito mais propriedade, a poetisa jordana-estadunidense Suheir Hammad, que declama abaixo um belo poema contra a ocupação da Palestina:

video

sexta-feira, 23 de julho de 2010

#49 - Malos Aires

Basquiat

Inspirado por Walter Benjamin

Acá estan mis ahogados poemas debajo de emergencias submersas. Mis coloridos cardúmenes jamás pescados nadando en despojos.

Palabras presas en los tejidos de polleras libres, girantes, de mujeres que no me leen, que bailan.

Pero no quieren más nuestras melancolías quisquillosas de izquierda. Quieren flores, no semillas, ni metáforas, pues ellos han conquistado sus sueños y dignidades en el sudor fétido de la rutina, conquistado a migajas, poco a poco, en el brazo, bajo sonrisas encogidas.


Tengo problemas de estómago. Es cierto que la melancolía y los problemas gastrointestinales tienen correspondencia. Pero, desde que en los cuerpos sociales los jugos gástricos dejaran de trabajar, decía Benjamin, un aire sofocante nos persiguen.

Aunque lamentablemente sin el optimismo trágico de los miserables, mis versos resisten con una melancolía soluble en los desdichados paisajes, sin fingirse de olores o colores ajenos - como fingen los poetas de la moda con sus gaseosas palabras.

Pero yo sigo, todavía sin conseguir resistir al olor arrogante y amargo de esos poetas que asisten distantes, fatalistas, y tan enternecidos, la cloaca despejando la desgracia en la mayoría.


Sin saber ellos que el hedor viene de su propia mierda.
    

segunda-feira, 19 de julho de 2010

#48 - Vinte e sete


                                                                                                 Robert Johnson

Com 27 anos morreram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Pete Ham, Kristen Pfaff, Pete de Freitas, Gary Train, Robert Johnson.

Mas eu fiquei. Não toco bem guitarra. Quisera ter tocado e cantado como Robert, em troca desses versos estocados.

“When the train, it left the station with two lights on behind
Well, the blue light was my blues
And the red light was my mind
All my love's in vain”


Ganhei muito amor da minha família ao longo dos meus 27 anos.
Ganhei trilhas, tijolos, terras.
Mas no meu vigésimo sétimo aniversário
Ganhei a impossibilidade de seguir sonhando.
É fato que nessas quase três décadas pouco fiz
Além de sonhar
O problema é que agora que quero acordar
E armar telhados babilônicos
Condenam-me a correr e a tapar o teto logo com o que tiver
Pois não querem mais enxugar-me depois que tomo a chuva.

Sempre tive uma única opção para fugir do utilitarismo dos meus ascendentes:

Ficar molhado de chuva e construir minha própria casa. Não só a que morarei com Clarisse, os livros e as contas.

Mas aquela que sobra espaço para eu continuar sendo. 

A outra opção é conseguir alguma posições no páreo e trocar medalhas por respeito e esparsas nuvens.

É manifesto que se não quero vencer como eles, não posso depender deles. Mas é triste saber que soterram tanto amor embaixo de pena. E que tenho que escolher um ou outro. Pois sei que não vencerei mais hollywoodianamente da forma que impressionarei a eles e a mim.

Clarence lembra-me que a felicidade não se compra, mas eu lhe replico que a vida não é wonderful.

Chamam-me pateticamente de Cícero, o porquinho mais preguiçoso, pois nem sequer ainda tenho minhas telhas, quando na verdade conheço profundamente os ensinamentos do Prático. O problema é que nas frustrações tenho vontade mesmo é de ser logo o Lobo.

Contudo o mais triste e desleal é que tive que construir todo esse reino invisível sozinho. Eles nunca colocaram flores nas minhas janelas para que possam localizar-me num colorido visível sobre o etéreo livramento. Nunca.

Pois deram-me de comer, e alguns excessos, lhes digo!. Mas até os que estudaram lingüísticas confinaram-se na Pragmática. Se ainda lessem Dewey ou Rorty e fossem pragmatistas estadunidenses, eu lhes diria que “deve-se tomar como verdadeiro aquilo que contribui para o bem estar da humanidade em geral, considerando o mais longo prazo possível“.

Mas dizem a mim: Vá direto ao assunto Bruno!
E eu respondo-lhes: todo amor estocável é perecível.

terça-feira, 29 de junho de 2010

#47 - Ócio

Fóssil de Flor

Ócio
Fóssil
Fuço. Livre num belo jardim
Tusso
Insosso
Insone. Sem levantar de mim

Enquanto pulula
A poeira que se acumula
Do tempo ido doído
Belo acúmulo florido
que me esvazia
Pra brotar o olvido
Em vaso ornado
De nostalgia.

Se é no ócio que se cria
No ócio sem companhia
Esfacelamo-nos ao meio dia
Quando o sol incide
Iluminando a covardia

E o revide é de quem me leria
Pois não há sócio nesse negócio
De poesia
E só as palavras larvas que emergem
Me lavrariam
Só as palavras que emprego
Me desempregariam


segunda-feira, 21 de junho de 2010

#46 - Sobre Saramago, mais ainda sobre o esquecimento.

 
     Escrito no tecido da burca


Eis a notícia que todos já receberam: José Saramago, grande romancista, comunista de lealdade inconsumível e único Nobel da Língua Portuguesa, partiu para a imortalidade dia 18 de junho último. Ele afirmava que todas as memórias são falsas, pois são sempre recriáveis, e confundidas com os nossos sonhos; diferentemente de Mário Benedetti, grande poeta uruguaio, também morto recentemente, há pouco mais de um ano, que elaborava tal pensamento, partindo por dizer que não havia esquecimento e, portanto, o que nos sobra é tão somente a memória.  

José Saramago alcançou sucesso literário principalmente a partir de sua obra Memorial do Convento, uma de tantas onde ele propôs-se a recriar mais honestamente falsas memórias da História. Noutras ele deu histórias necessárias a História, procurando responder em criativas parábolas, a pergunta: O que aconteceria se...?  Ele tinha pais analfabetos, foi serralheiro mecânico, funcionário público e hoje é considerado um dos maiores romancistas do século XX.

A desgastada imagem da florzinha que se ergue no meio de escombros não inaugurará jardins de verde-esperança. Mas será a que terá lugar guardado na nossa lembrança, no meio do tumulto. Eis o que significa a etimologia do termo “saramago”, uma florzinha silvestre de poucas pétalas que nasce e cresce pelos cantos, quase esquecida.

II
Agora sim. Posso prosseguir com outros assuntos, embora ainda mais antigos, acredito que menos consumidos:

Devo dar-lhes a notícia de que o embaixador e poeta Geraldo Holanda Cavalcanti, novo imortal eleito para Academia Brasileira de Letras em junho deste ano, é casado com Dirce de Assis, filha de Dilermando de Assis, homem que matou o imortal Euclides da Cunha e anos mais tarde, seu filho Euclides da Cunha Filho, o Quidinho.

Devo relembrar-lhes que Dilermando de Assis alvejou certeiramente Euclides pai em reação a tiroteio iniciado pelo autor de Os Sertões, que tinha seus motivos passionais, e também depois só abateu primorosamente Euclides Filho, após levar um tiro nas costas, anos mais tarde, do garoto que havia jurado vingança.

É importante ressaltar que Dilermando cavou sua imortalidade como escritor, primeiro sobrevivendo a dois tiroteios, depois narrando poeticamente tal tragédia que se sucedeu no bairro da Piedade, na Estrada Real da Santa Cruz há cento e um anos atrás.

O tiroteio com Euclides da Cunha fez o sucesso de jornais da época como O Mozambinho, que venderam mais que os livros de Dilermando. E ganhou as telas em minissérie adaptada em 1990, na qual o alvejado por Dilermando era o ator Tarcísio Meira.

Bem, como um bom galã canastrão,Tarcísio Meira descende por parte de pai, da aristocracia mineira, havendo sido seu tataravô paterno o tenente-coronel Antônio Joaquim Pereira de Magalhães, e por essa linhagem tem consanguinidade com o Mártir da Independência do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha chamado de...
 
Tiradentes. Segundo informações secretas da maçonaria – que teve como ilustre membro e crítico da cisão dos anos 40, nada menos que o nosso Dilermando Cândido de Assis – Tiradentes, embora imortalizado na História e no mito popular, não fora morto pelos portugueses e sim embarcado pelos maçons num navio para Angola, deixando a forca para um moribundo, que no seu lugar perdeu não só a vida.  

III
Hoje no Islã ainda são muitos os que perdem a vida enforcados. Muitos deles pagam o preço por desrespeitarem leis religiosas como as fatwas. No Islamismo, a fatwa é um pronunciamento emitido por um líder religioso que procura responder satisfatoriamente, segundo as leis islâmicas, a alguma questão perturbadora. Recentemente Abdul-Rahman Al-Barrak, sacerdote islâmico da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa que declarava como infiel (portanto, punível com a morte) toda pessoa que promover a mistura de homens e mulheres no mesmo ambiente.  

Al-Barrak foi duramente combatido pela poetisa saudita Hissa Hilal, que por trás da escuridão da burca, gritou versos contra o fundamentalismo islâmico. Hilal, anteriormente desconhecida do público, era uma dona de casa de 43 anos, que se projetou ganhando o terceiro lugar de um reality show dos Emirados Árabes, chamado Million´s Poet, uma espécie de show de calouros da poesia. Hissa Hilal foi aprovada por um júri composto inteiramente por homens bigodudos e levou um prêmio de mais de um milhão de reais. Embora a decisão final sobre o dinheiro seja do seu marido, ela disse que pretende procurar tratamento para a filha autista e comprar uma casa nova.

Poderia se afirmar que a imagem da poetisa Hissa Hilal subindo no palco, quase inteiramente coberta pela túnica negra, recitando poemas afirmando a memória das mulheres, parecia ser digno de ser a própria Morte carregando aqueles que nos esquecem em escombros. Fim?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

#45 - Arenas Hemingway

Prisão de El Morro, Cuba.

Ernest, devo confessar-te que também tenho
minhas grandes pretensões como escritor.

Contudo não passei uma temporada livre na Europa
Poderia confiar-te que tampouco,
Uma estadia preso em El Morro.
Isso me leva a duas lições:

A primeira me ensina a inventar a viagem aqui
E romper fronteiras das mais confinadas estrangeiridades
O que leva a abaloar-me em mundos ainda mais respeitáveis

Mas a segunda diz-me sobre a miséria
De ter que esquecer pelos ares
Fugas espetaculares.

Não basta visitar o que em mim há de Ushuaya ao México
Se um Reinaldo Arenas acordar engaiolado no meu léxico.

Enfim,
Reservo-me a abrir e fechar janelas aos poucos
(Enquanto que o afogado sou eu)
E ensaiar tudo debruçado no parapeito.
Tuas viagens, os mares,
Os mares
E as prisões de Reinaldo,
Mas continuo sufocado dentro da minha própria pequenitude
Receosa de tornar-se grande como teu Peixe-Espada ou como teu Velho
Para depois terminar pescada por qualquer um.

Minha pequenitude, furiosa e sequiosa como teu touro bufante em Pamplona
Mas com o eterno medo da tirânica multidão.

terça-feira, 16 de março de 2010

#44 - No More Superfluous Complaints



A Kenule Saro Wiwa, poeta nigeriano,  assassinado pela Ditadura, devido sua grande luta contra as petrolíferas.

Ken Saro Wiwa
Descanse dentro de mim
Enquanto escrevo esta agrura
Embalado sob as águas do Níger
Descontaminadas do óleo lutuoso
Da usura
Lave minhas mãos
E minhas estúpidas fúrias
Dessa tinta de sofreguidão
E de lamúrias.

sexta-feira, 12 de março de 2010

#43 - Poema do Fim da Linha



Meu pai, 1955.

Não adianta pegar na minha mão senhor gerente. Numas vezes saem asas, noutras letras ferventes. Sou sozinho, edito eu mesmo meus livros sabia? Mas que maçada quererem que eu seja da Companhia!

Porque sou vil, vil no sentido mais infame e mesquinho da minha Villelice. Se esta virtude existisse. Contumaz e soturno, neto de Renato, filho de Renato, renasço-me Bruno. Mais um Villela que não quer vencer de bolso cheio. Não se voa pesado, nem se anda guiado pelos que tem receio.

Vamos leve e soltos na trilha, meu pai, com sorte. A ansiedade do poeta é pela paixão, não pela morte. Eles pensam que mandam, controlam, e que são mais fortes. A viagem que planejávamos pro Sul é aqui e não há quem aborte. O Sul de toda a mesquinharia do mundo tornou-se o meu norte. No trânsito, no trapo, no trampo, no trato, o corte. Mas enquanto durar minha fome, cantarei teu nome até que o tempo me entorte.


#42 - Clandestinidade


A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Miguel Littín, do seu exílio, do passaporte falso, do idioma estrangeiro, da Ditadura Latino Americana.

E do cinema, claro, do cinema.

A clandestinidade que carrego não é contada por Garcia Márquez.

A clandestinidade que carrego não tem o glamour de Bacanaço, por entre mesas de bilhar vermelhas, trambiques, caçapas, e incertos caminhos certeiros, determinados por uma bola branca encardida, mas poderosa.

Não, nem tampouco o papo reto de João Antônio para narrá-la visceralmente.

(Creio que não preciso citar que tal clandestinidade não me tarja em nenhum movimento estético glamurizado com denominações “marginais”, o buraco é mais embaixo e incaçapável, my bróder...)

A clandestinidade que carrego é metáfora vencida, é despoticamente despoetizante, é vida real, lei prestes a ser aprovada em primeira instância, é alienação quase comemorável.

A clandestinidade que carrego não  é subversiva, tampouco um ato heróico. A clandestinidade que carrego é um mero ato digno.

Contra mim mesmo, e minhas vaidades de zapatismos emperiquetados.

A clandestinidade que carrego não é estrangeira aqui como em toda parte. Pois alguns são bem mais estrangeiros que outros. Alguns optam por estrangeiridades em troca de um pouco de paz, em vez de aceitar identidades extenuantes. 

A clandestinidade que carrego não carrega nada. Não tem bagagens, botes, Uzis, souvenirs.

A clandestinidade que carrego veste a minha alma de uma horizontalidade que impregna em todos os meus percursos, em todos os meus empreendimentos, em todos os meus encontros, com uma tensão própria de uma corda bamba onde um equilibrista desafia a soberania da morte e do jogador.

terça-feira, 2 de março de 2010

# 41 - Hôtel Méduse

















A ansiedade do poeta é pela paixão, não pela morte.
(Fragmento do Poema do Fim da Linha, 2010)

Meu nome é Bruno e vou direto ao assunto: eu sou o assunto. As palavras me elegeram. Se eu não terminar em Edmond Jabès (procure saber quem é) terminarei em ti. Quem é? - você dirá com seu vestido amarelo fusco, quando eu tocar na sua porta. 

Tive amores e só. Sou um homem dos paletós esfumaçados da alteridade. Abra a porta e me receba com um beijo vindouro. Passemos juntos sob tempestades de areia de letras alheias, enquanto nosso poema é uma paisagem intacta e destemida das nossas forças. Enquanto teu silêncio é o calabouço de moços líquidos esperando a forca. Ocas similitudes com paisagismos bestas. Faltou ímpeto a Ivana que não leu meu poema aos onze, talvez não teria escrito outros. 

Estou dentro do apartamento imenso onde você existe e eu extrapolo, mesmo diante da sua fortuna e colonizações bravias na África meridional. O sol incide sobre meu sapato que balança enquanto a observo intacta e incorrigível como a equação que orienta a fecundação das flores. A sombra do meu pé projeta-se enormemente na parede e a minha mediocridade se alastra tal como um cinema expressionista que não cabe na sala. Você me conta que em festas na Grécia Antiga as taças de vinho tinha a figura da Medusa no centro do copo, para que nunca ficassem vazias. Encheram a minha taça enquanto eu não bebia e de tanto transbordar ela tombou.

Houve um consenso esfumaçado de que seria eu, e o sou. Fugi de catequeses e catacreses, abandonei o luto ao anacoluto por uma prosa oracional que suicidei em existências passadas, desde que as palavras me elegeram. Releve os degraus desnecessários do texto, pois nada de belo que tu lerás até o ponto final deixará de entrecruzar na intraduzível rebelião contra as palavras, peleja que fez nascer em mim uma rabugentice elegante. Escher esquece-se ao subir as escadarias espirais do Hôtel Méduse em Bruxelas para encontrar sua amante. Nas paredes estão escritos nomes de paixões esquecidas e não há ilusões de perspectiva, pois os caminhos levam ao pueril do amor. Fundei sindicatos onde só sobraram eu. Fomentei piquetes e conluios contra advogados adverbiais que não defendem mais a causa. Se quiser entrar nessa comigo, concentre-se na rebelião. Releve a rabugentice. Entre o Muro das Lamentações e o que separa Israel da Palestina, prefira aquele que sendo feito de letras lhe oferece tijolos inefáveis. Não deixe que as palavras empalhem seus subterfúgios (não faça como eu, meu amor, você dura toda a eternidade sob este vestido amarelo, oh como dura!). 

Pediram-me para eu ser alguém. Para eu arrumar um emprego que me cause constipação. Ou você escreve poesia, ou trabalha 10 horas por dia. Ou então faz poemas dos venenos da verticalidade inverossímil das imbecilidades corporativas. Foram-se 10 anos querendo criar coletivamente, sequestrei Hermes Trismegisto, mas teimam em dizer que tenho que ser só o Bruno. Ser só um. Mas só o Bruno não vence a luta, vide o Giordano.
Ah... Eu fiquei sozinho. E quem fica sozinho por aqui tem que aturar a Gestapo das palavras. É só eu ameaçar propor um consenso que elas grafam-se depressa com o preto mais forte, para guardar linearmente essa conciliação, no lugar de oferecer-me sua reconhecida transparência cíclica e reflexível.
Meus pais não tocam tuba e não me mandaram passar uma temporada na Shakespeare in Company. Nem por outro lado passei fome o suficiente para agüentar mais de um dia na prisão de El Morro, onde viveu Arenas. Mas Rilke me assegura que a mediocridade da existência cotidiana em nada justifica poesia infame. 
Devo aos meus pais as paredes que tenho, sejam hoje janelas ou muros. Mas não sou poeta por culpa deles, nem os culpo por ser poeta. As janelas que me atiro são de inteira responsabilidade minha. Amei, amo, mas não tive um big romance. Talvez com Ana Cristina César. Se ela me conhecesse, e não tivesse se atirado daquela janela na Rua Tonelero em 1983.
Ano que nasci.
Entre um muro negro, metade inca, metade espanhol que divide os dois povos, eu não sou europeu, nem indígena, nem a mistura que pensava ser Chocano, sou o muro (para pensar em nada, visualize um muro branco. E eu visualizo o muro branco dos seus dentes. Você que não mais me beija, mas ainda insiste em sorrir, com um sorriso que engole o seu rosto). Enquanto Buster Douglas nocauteia Tyson, Oscar Peterson desiste do piano após perder os movimentos das mãos por causa de um derrame. Hoje eu perdi os movimentos dos mares intrínsecos (já não sei se esbarro no muro branco do esquecimento ou no muro branco do teu sorriso). 

A austeridade das palavras me defenderam da Medusa com o espelho dessas musas taciturnas e displicentes, e o meu texto virou uma muralha. Seria mais fácil se soubesse agora de que lado estou. Sei que ainda não do seu. Hoje, vá dormir bem, independentemente dos outros. Chegarei tarde. Deitarei tão longe da sua beleza, mas dentro de ti. Vejo o vestido amarelo dobrado na cadeira, as suas costas alvas e as possibilidades infinitas de rearranjos dos seus cabelos sob o lençol. 
A solidão solidifica a poesia, me dizia a solitária Medusa. E eu respondo:

Não tenho o que dizer-te se não há pra nós um futuro.
Só esse triste e último conselho
De quem te leu do espelho
(Que as pedras do passado transformaram em muro).


 Novembro 2007

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

#40 - O CINEMA ANÊMICO

Não me comove Vertov, com seu cine-olho. Nem Eisenstein, com seu cine-punho. Há tempos que ando com o olho roxo, com um cinema coxo e de rascunho. Há tempos que não represento ninguém nem retrato ou tampouco reproduzo. Presenteio-te com minha presença e meu tato neste cenário de ratos e corações difusos. Olho-te do vitrô ondulado e teu olhar decupado parece retrô. Meio Ivens, meio Michel Brault, meio “assistindo western à tarde junto com meu vô”. Minha lente é vidraça rachada, mão entrecortada dada que alguém se cortou. Capto os olhos vermelhos da moça com pele de louça que o marido quebrou. Filmo pro cara que vende o filme pirata filmado em cinema. Com letras flutuantes legendadas na cara de amantes assistindo La Terra Trema. Haja visto que larguei a tontura da literatura e entrei pro ANEMIC CINEMA, instalando um neon: Que apresenta o filme onde giro a colher do sopão de letrinhas dado aos que dormem embaixo do Cine Odeon.