terça-feira, 8 de setembro de 2009

#33 - A Velocidade da Sombra


I
Jesse Owens era o homem mais belo do mundo em 1936. Ele tinha 23 anos e era negro. Owens venceu os 100 e os 200 metros nas Olimpíadas de Berlim. Jesse Owens era mais rápido e belo que os canhões de Hitler, que por 10 segundos calaram. No entanto Roosevelt nunca felicitou Owens pelo feito, algo que o magoou muito mais do que as ofensas do Führer. Jesse Owens além de correr como uma pantera escreveu uma biografia. Ele era uma sombra.

II
Em 1694, Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo comandam o ataque final contra a Cerca do Macaco, principal mocambo de Palmares, onde Zumbi nasceu. Após quase 100 anos de resistência, o quilombo sucumbiu ao exército português, e embora ferido, Zumbi consegue fugir correndo. Um ano depois ele é encontrado e degolado, aos 40 anos. Zumbi quer dizer fantasma.

III
Como um fantasma, Stitt sobe as escadas do sombrio clube de jazz de Kansas City. E lá estava Ele. Todo fresco e com um charme alagadiço: Você é Charlie Parker? Sim, sou Charles Parker, sorrindo com seu dente de ouro. Bem, eu sou Sonny Stitt. Vamos descer e tocar uma coisa então meu senhor – retrucou Parker. Foi só o que aconteceu. E depois de tocar por horas, Ele comentou: Bem, seu som é muito parecido com o meu… Bem, seu som se parece muito com o meu também, retrucou Stitt.
Kenny Clarke, baterista e um dos inventores do bebop, disse que se não tivesse existido um Bird, teria existido um Sonny Stitt. No entanto Charlie fora um fantasma na vida de Stitt, tendo este seu reconhecimento como um “mero” imitador do grande Bird, o maior saxofonista e para muitos o maior músico da história do Jazz, morto apenas com 35 anos.

IV
Trinta e cinco anos viveu Bradley Rone, um boxeador negro medíocre. Ele morreu no ringue, lutando para conseguir dinheiro para o funeral de sua mãe, que não assistia suas lutas. Bradley Rone foi homenageado pelo então senador branco do Arizona John McCain, que concorreu nas útimas eleições à presidência dos EUA com o negro Barack Obama.

V

Tomo o norte seco da noite que a mim incrimina/ Que é caminho em beco pra dentro das suas retinas/ É o PM de corte reco que algema meus carinhos de mãos femininas/ E vigia os pretos insistentes enfileirados na esquina/ Da minha poesia irresponsavelmente assassina.

VI
A Policia no Brasil foi criada para conter os escravos negros. A Policia no Brasil continua especializada em conter os negros, escravos. E eu que escrevo, travo: uma luta de boxe contra um Phd negro ao mesmo tempo que tento inutilmente reduzir meus escritos a instruções de fuga aos pretos inocentes e analfabetos, presos em Presidente Bernardes.

VII
Da vala, pro berçário, do berçario pra Febem, da Febem pra Penitenciária, da Penitenciária pra Bernardes, de Bernardes, pra vala.
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VIII
Estou mais perto dos que latem ou dos que falam latim? Não sei. Sei que cansei de gritar. Devo morder?
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IX
Para o sociólogo Roberto Da Matta o futebol é um esporte que nos une a terra. O que era antes uma corrida bárbara e violenta de homens chutando a cabeça dos seus inimigos, é hoje um esporte que civilizou a parte mais bestial do nosso corpo: os pés. Não sei o porquê mas tenho muito sonhos com Garrincha, mesmo nunca tendo o visto jogar. Eu sonho com suas pernas tortas e seus dribles desconcertantes, uma vez ou outra um gol. Para Drummond, “se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios”. Se há algum poeta que eu gostaria de ser, talvez fosse Garrincha e não Drummond.
Embora eu tenha só 26 anos, ontem pude assistir a um feito extraordinário do esporte. 73 anos depois de Owens, com a mesma idade que ele e também em Berlim, um jamaicano negro chamado Usain Bolt, bateu em 11 centésimos seu próprio recorde mundial dos 100 metros rasos, deixando muito para trás um afro-americano, que ficou com a prata. Enquanto muitos correm pra sobreviver, pra matar ou pra morrer; mesmo ganhando um bom dinheiro com isso, vi que Bolt corre por correr; porém não se contenta somente em correr mais rápido que todos, ele corre contra ele mesmo.
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X
Eu queria ser ele. Fim.

Um comentário:

  1. "Ao le-lo, voce entra na história.Voce faz parte dela.Voce encontra Garrincha versificando os dribles desconcertantes.Voce cumprimenta Drummond no campo e num súbito bom dia, voce paralisa e poetisa a imagem do cruzeiro que infeliz daqueles que não enxergam.Voce barra no Jesse Owens que passa e quando voce vai falar...Ja foi e voce sentiu apenas o vento que ele, com sua velocidade ímpar, criou.Voce se vê sentado num bar, saloon, há 70 anos atrás ouvindo Charlie Parker com seu saxofone.De repente, se encontra na Febem, jogado na vala sendo pisoteado pelos dragões das tropas de elite.E no mais, voce se encontra parado, no sofá, esperando a morte chegar na dialética que é a escrita de Bruno Vilela.Meus eternos parabens e orgulho de poder dividir meus singelos textos com uma pessoa tão extimada.Tão querida que é vós."

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