terça-feira, 8 de setembro de 2009

# 21 - Queria Ser Preta Retinta*

Queria ser preta retinta/ preta de tinta/ de caneta bic azulada/ que pinta/ a cor de noite enluarada/ que ainda/ brilha uma madrugada distinta/ Preta pra dizer o que penso/ preta pra dizer que pertenço/ preta pra dizer que convenço/ nem que ao menos fosse a pesquisa do censo/ outra classificação que não fosse PRETA/ dispenso/ Porque nunca aprendi de cór minha cor descorada/ cor amarelo mostarda/ a pele parda/ que nem farda/ do guarda/ ou do bege da calça carga/ dos presos na cela amarga/ da pele dos home/ e da pele sem nome/ que nem é cor de pele nem nada/ uma cor encruada/ que envermelha no sol e no inverno é apagada/ Desbotada dos quadros/ que não se enquadra na ata/ cor do contra que empata/ Que assoma/ que se esconde como sombra e toma/ o tom da cor da minha alma croma/ Cheia de calos/ cheia de ralos/ por onde escorre o cabelo que tento alisá-lo/ lá na night me igualo/ até que soem os galos/ cabelo de escova/ cabelo de estopa/ das xuxas e barbies, vassalo/ E seus olhos de vidro/ cabelo escorrido passado/ nariz apertado/ tudo clareado!/ disfarço meu lado/ disfarço meu lábio/ não sei se estou hábil/ pra decidir qual é o lado certo ou errado/ disfarço meu sangue e grito um bocado/ esqueço minha raça/ essa farsa de estado/ Esqueço meu nome e sumo no meu reservado buraco/ me afasto do prisma e caio na cisma do abismo da minha alma e seu asco/ seu fiasco/ alma cheia de visgo de musgo de vício da vida parda difícil cor de damasco/ Encardida/ da cor indigente, perdida/ da cor indigente, indistinta/ da cor indigente/ Ah, mas se eu fosse gente preta daquelas retintas/ preta de noite uma preta linda/ uma preta poeta/ Elisa Lucinda/ eu descia minha alma do muro te juro não é finta/ me jogava num balde de tinta/ da cor do escuro sucinta.

*Minha versão para o poema de Fernanda Pinto de Almeida,

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