terça-feira, 8 de setembro de 2009

#5 - Instruções para regar as cerejeiras dos seus olhos


Não é um jogo a vida, ouça-me bem. As nuvens dançam sem compromisso. O céu começa a nublar e a hora de tomar uma decisão é agora sob o sol que ainda se impõe. No intervalo em que as palavras não espelham subterfúgios celestes, feche os olhos e tente sonhar como árvore.

O conselho que te dou é um: experimente cerejas de verdade e não aquelas que revoltantemente são feitas de chuchu e causam um desconforto estético sobre os bolos e sorvetes. Mas caso lhe seja frustrante o azedo inicial que algumas delas nos trazem, assim imprevistamente, relaxe, e tente sentir a verdadeira consistência da fruta. Degustando dessa iguaria restrita a poucos se dirija agora a uma biblioteca e tome emprestado um livro também restrito a poucos: Histórias de Cronopius y de Famas, de Julio Cortázar, e leia do Manual de Instrucciones às Histórias de Cronopius y de Famas, propriamente dita. Logo em seguida é preciso admitir que mesmo nesse inverno sem brio brotam cerejeiras dos seus olhos e que isso não nasceu depois de que nos conhecemos.

Após a leitura, convém, definitivamente, numa eleição galáctica, escolher se és um cronopius ou um fama, já que um esperanza, nunca se vê como um esperanza.

Sendo um fama, a primeira coisa a fazer é recorrer a um bom olhar empírico, quem sabe sustentado filosoficamente por uma redução fenomenológica husserliana. Deve isolar o objeto de todas as outras implicações sociais, culturais e físicas, e concentrar-se no fenômeno em si. No entanto, é importante considerar o olhar de outro fama. Adianto lhe que muito provavelmente nenhum fama além de ti conseguirá enxergar tais cerejeiras, ou constatar sua existência material.

Posta a existência aprazível e não consideravelmente nociva da hortaliça pungente que se ergue da sua fatigada vista, sem que lhe afete a visão ou um andar socialmente garboso, dá para inferir que de fato tais cerejeiras não são de natureza dotada de matéria, portanto não pesam. Deve ser um fenômeno óptico, ou mesmo feita de alguma espécie de comprimentos de onda que simulam uma dispendiosa radiação electromagnética em formato de cerejeiras floridas de inverno, curiosamente iguais às da Rua Tonelero. Outra possibilidade há de se considerar, contudo menos substanciosa, aquela que afirma ser alucinação visual ou hipnagógica, causada por algum trauma, psicose ou reação a um medicamento tomado. Convém assim reunir-se com outros famas para que lhes indique um bom psiquiatra que tenha gosto por plantas.

Considerando a natureza do fenômeno, seja qual for, e a autoridade científica concebida ao autor que te escreve e compartilha contigo a experiência empírica, vale adiantar-se no processo de banho ou regada, se quiseres ganhar cerejas verdadeiramente saborosas a tempo do Natal. Convém consultar um agricultor ou um botânico, mas sem marcar encontro, já que pode querer te expor na próxima Feira Botânica, como atração maior do que a cenoura em forma de mão humana.


Outro conselho que lhe dou bastante sucinto e concreto, é que dirija-se a Rua Tonelero num dia de chuva e finja ser um observador de pássaros debaixo das cerejeiras. Assim, misturando seus galhos com os galhos factíveis de umas das frondosas e pouco floridas árvores, elegidas pelo teu intacto e ainda apurado olhar, talvez não notarão o que em certa parte da sua cônscia manhã, pense ser uma anomalia aterrorizante. Deixe a água escorrer um pouco nos olhos, e espere alguns dias. Talvez surta algum efeito. Talvez. Não há mais nada que posso fazer por ti. Só uma ressalva: nunca, nunca consulte um esperanza a respeito de sua condição floral, pois factualmente tal ser pode confundir o fenômeno electromagnético ou  hipnagógico com uma manifestação místico-religiosa digna de aceitações indubitáveis.

Sendo tu um cronopius, a história é outra. Não conte para ninguém, mas eu posso te ajudar infalivelmente. Eu posso te ajudar a regar e a compreender tudo, mas precisamos nos encontrar. Se quiser minha ajuda, primeiramente é imprescindível levar em consideração que você, assim, cujos olhos são doces, precisa colocar um vestido, mesmo que simples, à altura de sua natureza doce. E sair de casa às duas da tarde. Tem menos trânsito.

Em seguida, leia atentamente as minhas instruções. Você não tem muito tempo. Tome o ônibus número 13 na Avenida Bernardino de Campos, em algum ponto mais ou menos próximo à praia, no sentido centro. Aprecie a paisagem, seja da fotografia das coisas, seja da fotografia das pessoas. Desça na Lagoa da Saudade e lá arrume duas pedrinhas à beira d ’água, há muitas, use uma para riscar a outra. Em uma marque a inicial de uma pessoa que perdeu e que sente muita saudade; e em outra de uma pessoa que sentiria muita saudade se perdesse agora. Arremesse-as com seriedade e algum tipo de fé.

Só alguém poderá regar a cerejeira dos seus olhos. Não será qualquer coisa ou um temporal. Só alguém. E pra ser então este alguém eu humildemente me ofereço. Estarei te esperando às 16:00 no mesmo ponto em que iniciou a viagem e que concluirá sozinha saindo da Lagoa e pegando o mesmo ônibus 13.

Ao me encontrar não dirá nada nem eu. Só olhará profundamente nos meus olhos. Se desse encontro nada render para que floresça as cerejeiras dos seus olhos e dos meus, abra o livro no conto Instrucciones para Llorar e leia cuidadosamente. Só uma ressalva: No seu caso o choro é inverso, deve ser absorvido, não derramado. E não pense que é tão simples. Mas lembre-se que existem relâmpagos que vem da terra e não do céu. Hoje deve chover.

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