quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

#39 - Poesia de In-sur-gência Feminista

   
   Não lave, não passe, não cozinhe, não escreva
   Suje, amasse, vomite, grite
   Na página dos que dizem pra que não se atreva
   A escrever uma poesia triste

   Sobre o que desde sempre se sucede
   Contigo mulher, popular ou erudita
   Ele diz que até o poder, lhe concede
   Mas nunca lhe concede a escrita

#38 - O sequestrador

Quem escreve, se atreve. Trancado dentro do porta-mala do Uno. Escrevo meu réquiem em rap oportuno. Quem grita agora, sou eu mesmo, o Bruno. E o atropelamento não é na rima, é no Passeio Noturno. Mas quem guia o volante é você, te dei minha caneta, então escreve pra eu ver. Escreve: Pra eu viver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

#37 - Morro se trabalho, se não trabalho morro


Morro se trabalho
Se não trabalho, morro
Eu preciso ter cascalho,
Ou ser logo forro?

Se escrevo, passo fome
Se viro escravo, você me come
A carne, o sonho e o nome.

Mas estou vivo e ainda escrevo
E só contra mim concorro
Quanto menos eu for longevo
Mais breve serei forro
Pois morro se trabalho
Se não trabalho, morro


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

#36 - Costureiras de Monlevade


Costureiras sem patrão de Monlevade
Costuram meus arrabaldes
Sem cercanias, sem ponto final.

Onde a poesia
Não se faz da trama entre a agulha e o sisal
Mas sim de dedos tramados sem medo e dedal

Não costurem mais as botas e a farda rota dos caudilhos,
Não mais minhas senhoras!
Nem deixe que as fábricas empreguem os vossos filhos
Ganhando 3 centavos por hora!

Que eu também não costurarei meu ideal em bandeiras,
Sejam de papel ou tecido
Quem quiser que o leia nas entrelinhas, por entre mãos dadas, roseiras
E corações partidos

E lutemos p´ra que o tempo não teça o olvido
Do som dos teares junto à canção
Esta que destece a cada verso, o tecido
Das amarras que nos prendem as mãos

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

#35 - Ao Professor Boaventura Sousa Santos


Bom Dia!
Você está adentrando um território em rebeldia
Aqui só valem os versos que são rediscutidos por todos
Não só pela maioria!
Está proibido o tráfico de armas e de melancolias
Nosso otimismo não ri nem suspira, ele tragedia
Está proibida a monocultura epistemológica
E o desmatamento da utopia
Não a paz sem justiça

Não ao discurso de futuro
E mais um pouco que eu peço
Não a destruição da natureza
Não a conservação da beleza,
Que custe o preço do ingresso



terça-feira, 8 de setembro de 2009

#34 - 80 dias

Pode parecer tolice/ ainda não escrevi sobre a Clarisse/ embora eu dedique a ela o que de mim eu disse/ e o que dela em mim já tem/ Mas pra não cair na embustice/ proponho escrever com ela porque com ela eu vou além/ Dou a volta ao mundo em 80 dias, vê se podia, de táxi, metrô, a pé, busão, falta de trem/ Vou da Angélica ao Jardim América, Brasília, Santos/ rindo ou com pranto/ nós vamos bem/. Do 74 ao 73, João XXIII, eu, ela e o mundo ou mais ninguém/ Vou de mão dada escrevendo em estrada que ainda nem tem/ Mas 80 é pouco porque me perco e me esqueço nos seus abraços, e nos sorrisos que ainda nem/ entendo o tamanho disso/se isso é o mundo que eu dei a volta assim tão rápido/assim tão ávido/ que mais eu giro no coração/no quarteirão/ W3 Norte ou em Havana/ o mundo aumenta, o tempo emana/ e uma semana/ parece um mês/ e o amor que venta na nossa tez/ e na janela do nosso trem/ é insensatez/ deixar entrar já de uma vez/, enquanto a gente segue beijando um beijo nosso que já são três.
-
à Clarisse Aló

#33 - A Velocidade da Sombra


I
Jesse Owens era o homem mais belo do mundo em 1936. Ele tinha 23 anos e era negro. Owens venceu os 100 e os 200 metros nas Olimpíadas de Berlim. Jesse Owens era mais rápido e belo que os canhões de Hitler, que por 10 segundos calaram. No entanto Roosevelt nunca felicitou Owens pelo feito, algo que o magoou muito mais do que as ofensas do Führer. Jesse Owens além de correr como uma pantera escreveu uma biografia. Ele era uma sombra.

II
Em 1694, Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo comandam o ataque final contra a Cerca do Macaco, principal mocambo de Palmares, onde Zumbi nasceu. Após quase 100 anos de resistência, o quilombo sucumbiu ao exército português, e embora ferido, Zumbi consegue fugir correndo. Um ano depois ele é encontrado e degolado, aos 40 anos. Zumbi quer dizer fantasma.

III
Como um fantasma, Stitt sobe as escadas do sombrio clube de jazz de Kansas City. E lá estava Ele. Todo fresco e com um charme alagadiço: Você é Charlie Parker? Sim, sou Charles Parker, sorrindo com seu dente de ouro. Bem, eu sou Sonny Stitt. Vamos descer e tocar uma coisa então meu senhor – retrucou Parker. Foi só o que aconteceu. E depois de tocar por horas, Ele comentou: Bem, seu som é muito parecido com o meu… Bem, seu som se parece muito com o meu também, retrucou Stitt.
Kenny Clarke, baterista e um dos inventores do bebop, disse que se não tivesse existido um Bird, teria existido um Sonny Stitt. No entanto Charlie fora um fantasma na vida de Stitt, tendo este seu reconhecimento como um “mero” imitador do grande Bird, o maior saxofonista e para muitos o maior músico da história do Jazz, morto apenas com 35 anos.

IV
Trinta e cinco anos viveu Bradley Rone, um boxeador negro medíocre. Ele morreu no ringue, lutando para conseguir dinheiro para o funeral de sua mãe, que não assistia suas lutas. Bradley Rone foi homenageado pelo então senador branco do Arizona John McCain, que concorreu nas útimas eleições à presidência dos EUA com o negro Barack Obama.

V

Tomo o norte seco da noite que a mim incrimina/ Que é caminho em beco pra dentro das suas retinas/ É o PM de corte reco que algema meus carinhos de mãos femininas/ E vigia os pretos insistentes enfileirados na esquina/ Da minha poesia irresponsavelmente assassina.

VI
A Policia no Brasil foi criada para conter os escravos negros. A Policia no Brasil continua especializada em conter os negros, escravos. E eu que escrevo, travo: uma luta de boxe contra um Phd negro ao mesmo tempo que tento inutilmente reduzir meus escritos a instruções de fuga aos pretos inocentes e analfabetos, presos em Presidente Bernardes.

VII
Da vala, pro berçário, do berçario pra Febem, da Febem pra Penitenciária, da Penitenciária pra Bernardes, de Bernardes, pra vala.
-

VIII
Estou mais perto dos que latem ou dos que falam latim? Não sei. Sei que cansei de gritar. Devo morder?
-
IX
Para o sociólogo Roberto Da Matta o futebol é um esporte que nos une a terra. O que era antes uma corrida bárbara e violenta de homens chutando a cabeça dos seus inimigos, é hoje um esporte que civilizou a parte mais bestial do nosso corpo: os pés. Não sei o porquê mas tenho muito sonhos com Garrincha, mesmo nunca tendo o visto jogar. Eu sonho com suas pernas tortas e seus dribles desconcertantes, uma vez ou outra um gol. Para Drummond, “se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios”. Se há algum poeta que eu gostaria de ser, talvez fosse Garrincha e não Drummond.
Embora eu tenha só 26 anos, ontem pude assistir a um feito extraordinário do esporte. 73 anos depois de Owens, com a mesma idade que ele e também em Berlim, um jamaicano negro chamado Usain Bolt, bateu em 11 centésimos seu próprio recorde mundial dos 100 metros rasos, deixando muito para trás um afro-americano, que ficou com a prata. Enquanto muitos correm pra sobreviver, pra matar ou pra morrer; mesmo ganhando um bom dinheiro com isso, vi que Bolt corre por correr; porém não se contenta somente em correr mais rápido que todos, ele corre contra ele mesmo.
-
X
Eu queria ser ele. Fim.

#32 - Para Roberto Piva


Voam os pelicanos carregando no papo o gosto de peixe morto dos meus azedumes poéticos.Apodero-me da mão do peixeiro para escrever essa sanguinolência marítima e insalubre, enquanto a mão do pescador ocupa-se em realizar poemas atlânticos. Não tenho sentimento atlântico do mundo. Estou afogado numa poça, com os pés mergulhados na lama, com caranguejinhos saindo pela minha boca e ouvidos, enquanto que minhas mãos ocupam-se do ofício de escrever tubulações intabuláveis onde escorre a mesma merda ultrapassada que ninguém ainda quis engolir.Mais que os peixes, quero os girinos. Contra a limpidez dos lagos, a favor das águas turvas, contra os mares, a favor das poças rasas. Quero o gotejar continuo do que se esforça pra fluir no meio de sangue e pedra..

#31 - Não me importa muito ser lido

Theodore Watson e todos que estavam em Rotterdam nesse dia escreveram o que quiseram, onde quiseram.


Não me importa muito ser lido
Se são tantos os que passam que nem sabem ler
Quero a leitura dos esquecidos
Não dos poucos que exercem a profissão de esquecer
-
Não me venha dizer o que devo escrever
Se escrevo sobre a solidão
de quem não se escreve no mundo
E sobre quem escreve a fundo
Sobre o mundo que só de dentro se vê
-
Você que me lê então saiba que procuro abrigo
Abrigo aos que cometeram o transfúgio
De quererem escrever muito além do umbigo
E ter na solidão do outro o refúgio
-
O que então teria a dizer-te se não há pra nós um futuro?
Além desse último conselho
De quem que te leu do espelho
Que as pedras do passado transformaram em muro

#30 - Sede


Os Gêmeos


….Enquanto o Tietê nem parece correr com o vento, o trânsito dos carros palavras, na marginal permanece lento. Se é doce morrer no mar; em São Paulo sem mar a morte é salgada, ela é vida suada a passar correndo; o rio se confunde com a rua, cada um anda na sua, e o fluxo contra nós a voar pra dentro. A tragédia é um encontrão acidental do trem da realidade com o do consentimento. E só vive quem rima com o outro sem mágoa ou talento. E pra isso mais do que de água, é de palavras que vivemos sedentos.

#29 - O Desabamento do Samba


Eu conheço o samba no assombro/ Na minuciosidade original dos seus escombros/ Na serpente da sagacidade sobre os ombros/ Serpenteia a perna bamba na saga pela cidade cheia de calombos/ Improvisando que eu zombo/ Da tábua que não fez mal, de degrau, no lugar do rombo/ Imprevisível a mesma que nos serviu de tombo/ Das escadarias que ela sobe balançando os lombos…

Feliiiiiiiiiiz é ela!
Feita de ventania
E eu que sou feito de favela
Favela que por ti desabaria!

Ando todo dia só na minha companhia/ A serpente do caminho me envenena à serventia/ Minha parede e meu esqueleto são de alvenaria/ E minhas veias entupidas são escadarias frias/Quem me daria mais do que um dia? Nessa chuva que não mais estia/ Pelas escadas escorre sangue envenenado, não mosca do meu lado, pobre os meus olhos que desabam alagados/ E os meus pedaços pra todo lado, arrastado, endurecem esse samba liquidificado/

Feliiiiiiiiiiiiz é ela!
Feita de ventania
E eu que sou feito de favela
Favela que por ti desabaria!

Ilustração de Marcílio Duarte, 29 anos, sobrevivente, pai, músico, ator e designer

#28 - O trocadilho mais rápido


Sou o trocadilho mais rápido da zona oeste/ O que assalta na sul na norte e na leste/ Tua língua que salta na ribalta num teatro de Brecht/ Mas te devolvo em rima sobressalta pra tu usares como quiseste/ Mas que língua se come, e que matar a fome de rima e pão que se preste?/ Em tempo que a fome assalta, e que a nossa gente moleste/ não tem ribalta, e rima sobressalta pra ti pra curar essa peste/ Por isso é que está dito e repito, que eu sou o trocadilho mais rápido, quer dizer o gatilho mais rápido, mais rápido do velho oeste.

#27 - Perrito Cusqueño


Perrito cuzqueño
No tenga medo,
Tu eres un héroe
para mi!

Trabajando por las noches
Revirando los basureros
Eres pobre, mas grande
Y dulcemente salvaje

Perrito cuzqueño
Anda por esas calles
Como nadie
Solamente tu comprende la llúvia
Aunque ella moje tu única chaqueta
Y gotee por tu barba

Perrito Cuzqueño
Caminando desapercibido
Por sangre y ruinas
De Tupac y Pizarro
Hablando solo un idioma
Lo más bello
Que es del grito

Perrito cuzqueño
Con los ojos más profundos
Y humanos
Que mi hermanos de aquí

Perrito cuzqueño
Tu eres el único
Americano
para mi

Cusco, Peru 15 de janeiro de 2007

#26 - Sem bagagem rimo no Road Movie dos que não tem memória


Sem bagagem rimo no road movie dos que não tem memória. Improviso no groove uma viagem à linguagem ilusória, que não se cala, na minha fala e na minha córnea. Se a rima não é notória, aceita minha promissória, que eu me desenvolvo hora a hora. E não jogo fora. A letra dos mc´s que representam agora: Tipo Racionais, Facção, Black Alien, Speed e os que já foram embora. Essa é a minha oratória, contra a moratória, da escola do moleque onde não se ensina mais história. A dele tá lá fora e escura não se aflora, e quando jogam muita luz às vezes estoura. Não há ninguém que conta e não se decora. Pode crer, só vou aprender a escrever, se for pra dizer: que eu escrevo diferente de você. Pode crer, só vou aprender a escrever, se for pra dizer: que eu escrevo diferente de você.

# 25 - Passarela da Rua Capistrano de Abreu a Rua Cruzeiro


Trago nessa linha o cerol cortante dos que gritam pra dentro. Empino um poema sem letras no céu, estampado com multicolores, legível somente às crianças analfabetas que trançam suas pipas bravias na minha, num duelo onde o único poder é o do vento.


Trago a beleza como uma eletricidade que percorre o fio que vai das minhas palavras as tuas. O fio elétrico que leva a luz à tua casa, ao teu peito. Trago a beleza do homem que vive da venda de fios de cobre. O homem sem cor, cor de pobre, da mesma cor do seu cobre. E que morre eletrocutado nos tristes trilhos da linha sem versos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.

# 24 - La Espuma


Salar de Uyuni, Bolivia, 2007 – Foto de Bruno Villela

Un viento agudo raya el cielo que sueño
Y posa garza y blanco sobre la espuma
Sin desprenderse una única pluma
Y así del azul como del blanco es dueño

Como un verso libre que escribo despanzurrando el horizonte
Sin letra ni palabras gritadas o leídas
Ágil como una garza pero con la fuerza de un rinoceronte
Empezando y terminando como la vida

# 23 - Canos, Canais, Canoas

Foto de Isabel Nascimento
-
Canos, canais, canoas
Há algo que corre
Mas de tão devagar me enjoa

Canos, canais, canoas
Há algo que morre
Mas que ninguém apregoa
Canos, canais, canoas
Há uma paz por aqui
Mas uma paz que destoa
Casebres, casernas, casulos
De borboleta crescida
Mas que ainda não voa

Canos, canais, canoas
Há uma canção no ar
Mas que nunca ecoa
Canos, canais, canoas
Há um azul tão bonito
Mas que das outras cores caçoa
Canos, canais, canoas
Há tantos jovens lá fora
Mas que vivem a toa
Carolas Caducos Coroas

Canos, canais, canoas
Há um progresso que venta
Mas que nem todos perdoa
Canos, canais, canoas
Há uma umidade que acalma
Mas que corrói a alma e a proa
Canos, canais, canoas
Há uma sede que move
Que move as pessoas
(Mas que o mar tal anseio não sacia
E que talvez no seio da sua senhoria
Ainda doa)
De ser uma mater-polis que estila
E ao mesmo tempo uma vila
Onde o sino ressoa

Canos, canais, canoas
Há algo que escorre
Mas de tão devagar me enjoa
Canos, canais, canoas
Mas há algo que sobe
E que dentro de mim me abaloa

Bruno Villela, 05 de abril de 2008

#22 - Putas, Portos, Polvos, Guindastes


Foto de Consuelo Vivanco

Putas, portos de bolsas
Balsas com bálsamo
De moças

Guindastes, polvos de aço
Tentáculos com o obstáculo
Do abraço

Putas. Portos. Polvos. Guindastes.
Pro mar me arrastem
Agora em torpor

Putas. Portos. Polvos. Guindastes
Me abracem
Pois não tenho amor

# 21 - Queria Ser Preta Retinta*

Queria ser preta retinta/ preta de tinta/ de caneta bic azulada/ que pinta/ a cor de noite enluarada/ que ainda/ brilha uma madrugada distinta/ Preta pra dizer o que penso/ preta pra dizer que pertenço/ preta pra dizer que convenço/ nem que ao menos fosse a pesquisa do censo/ outra classificação que não fosse PRETA/ dispenso/ Porque nunca aprendi de cór minha cor descorada/ cor amarelo mostarda/ a pele parda/ que nem farda/ do guarda/ ou do bege da calça carga/ dos presos na cela amarga/ da pele dos home/ e da pele sem nome/ que nem é cor de pele nem nada/ uma cor encruada/ que envermelha no sol e no inverno é apagada/ Desbotada dos quadros/ que não se enquadra na ata/ cor do contra que empata/ Que assoma/ que se esconde como sombra e toma/ o tom da cor da minha alma croma/ Cheia de calos/ cheia de ralos/ por onde escorre o cabelo que tento alisá-lo/ lá na night me igualo/ até que soem os galos/ cabelo de escova/ cabelo de estopa/ das xuxas e barbies, vassalo/ E seus olhos de vidro/ cabelo escorrido passado/ nariz apertado/ tudo clareado!/ disfarço meu lado/ disfarço meu lábio/ não sei se estou hábil/ pra decidir qual é o lado certo ou errado/ disfarço meu sangue e grito um bocado/ esqueço minha raça/ essa farsa de estado/ Esqueço meu nome e sumo no meu reservado buraco/ me afasto do prisma e caio na cisma do abismo da minha alma e seu asco/ seu fiasco/ alma cheia de visgo de musgo de vício da vida parda difícil cor de damasco/ Encardida/ da cor indigente, perdida/ da cor indigente, indistinta/ da cor indigente/ Ah, mas se eu fosse gente preta daquelas retintas/ preta de noite uma preta linda/ uma preta poeta/ Elisa Lucinda/ eu descia minha alma do muro te juro não é finta/ me jogava num balde de tinta/ da cor do escuro sucinta.

*Minha versão para o poema de Fernanda Pinto de Almeida,

# 20 - Epígrafe do Ladrão


Pego a vida, o papel e a caneta
Tenho pressa e uma Ponto Quarenta
Tenho ninguém tenho minha preta
Meu caminho: as minhas costas que venta

#19 - Aos de Horizonte Ondulado


Saldade é saudade do sal que nos arde Escrevo sem alarde Antes q´me alague de tanta saudade. Escrevo e me atrevo um bocado Grito aos deslinguados de horizonte ondulado Fica ligado To do teu lado e não to desse Desce a catraia da solidão de alguém que me lesse De Vicente de Carvalho ao Mercado Ai se tudo alagasse de palavreado embolado aos homensuados por Deus Iletrados Irados Quem tem horizonte ondulado saca só qual é o recado Quem tem pé molhado e sabe que o mar e areia nunca ficam brigado, Mesmo depois de um pelo outro ficar destroçado, Mano tem pulso firme, mas olhos marejados E sabe que o encontro delicado Da rima com o outro que não teme Vale mais que qualquer arte que se expreme Nos doutorado. Azul vermelho, laranja, amarelo, dourado. Barcos coloridos, mas um mar descorado.

#18 - Com o Calcário Duro das tuas Palavras


Banksy.


Com o calcário duro das tuas palavras desfaz teu muro e faz tua estrada/ Asfalta a rua de terra da tua quebrada/ Põe o tijolo que falta na tua morada/ O que a bala de fuzil partiu, a que entrou ninguém viu, e matou tua mulher amada/ Com o calcário duro das tuas palavras/ Mas antes de tudo faça tua coluna de vértebras despregadas/ Pra que tu passes dançando, leve, quase voando, breve, e não andando por essa maçada/ Com o calcário duro das tuas palavras, desfaz teu muro e faz tua estrada/ E para isso quem precisa de palavras empedradas? Pra poesia se precisa de um mar, e amar, e amar e mais nada.

Bruno.

# 17 - O Nascimento do Anjo

Nessa poesia que me venta as costas
Minha única frase é minha coluna vertebral
Minhas vértebras as palavras sobrepostas
Do mais puro calcário estrutural

Não sei se acaba por pertencer tanto a mim
Sustentando o movimento de todo meu conteúdo
Só sei que acaba por se atrasar e enfim
Passa nos meus olhos só depois de tudo

Essa poesia é uma asa que nasce na frase
Quando o vento que tanjo,
esfria da espinha, aos olhos amolecidos
Pra eu voar como anjo
nas nuvens que eu fiz e que no fim não me atrase
A passar pela vida sem ter nunca morrido

#16 - Mi pecho


Pamplona vacía
Mi amor toro que camina por las calles
Tranquilo
Sin opositores
Masticando mi arrogancia
Mas con los ojos prestados de ti.
A Ernest Hemingway

#15 - Declaración

Extraño a mi mundo
Debajo de sus cabellos
La vida se va volviendo dificilisima
Dificilisima de acompañar
En su ritmo tonal y premeditado
Sin la improvisación
Que yo gastaba echado en su vientre
O buscando acalentos
En su cuerpo moldeable

Estoy solo
No tengo el diñero del café
Aún amo la chica de vestido azul
De tejido nublado
Ela que siempre supe ser mi soledad
En los días que yo solo sabía llover a mí

a Fernanda de Almeida

Santos, 2004.

#14 - Bombaim


Hoje estou do tamanho de Bombaim
Há muita gente em mim
Há muita gente em mim

Há muitos sonhos enfim
E uma cinematografia febril
Que insiste em registrar
As tantas possibilidades de encontros hoje

A velha miséria passa de bicicleta
No meio da miséria de tantas bicicletas velhas
Há pequenos, mas muitos sonhos em mim
Hoje ainda entardeço do tamanho de Bombaim

#13 - Religião




Eu não tenho ninguém
Mas alguém me dê ouvidos!
Faz um tempo que não ando bem
De tudo tenho desistido

E até a minha única religião mesmo tão frágil
De acreditar que serei lido
Já não lembro mais da prece ou do presságio
É bem melhor ser esquecido

Mas quando volto com todo esse esforço
De escrever de novo a qualquer preço
Torno a olhar o alvoroço
Dessa cidade onde eu me esqueço

E lembro feliz, mas com tamanha saudade
Mesmo sob um tempo tão espesso
Que Augusto dos Anjos se foi na mocidade
Mas eu ainda permaneço

Matar-me? Não o farei, eu lhe ressalto
Pois resisto com um horizonte altivo
Na crença de que o grito sai mais alto
Enquanto ainda eu estiver vivo!

#12 - Sobre a Felicidade


Felicidade é despir-se desgarradamente para o outro
Sabendo que a tristeza é a impossibilidade de tirar tudo
Felicidade é despir-se desgarradamente para ti
Sabendo que a tristeza é a impossibilidade de tirar tudo

#11 - Sobre a Felicidade II


Felicidade? Era eu ser o Roberto Rosselini no momento que finalizou Alemanha Ano Zero, em 45 e foi deitar-se nu ao lado de Ingrid Bergman, podendo acreditar que o mundo recomeçava ali.

#10 - Condor


à André Luis Lopes Neves,

Escrevo para meu amigo, condor viajante e incansável
Sempre de passagem, implacável
Por isso infindo

Escrever fora do abrigo tuas grandes memórias
De vôos fora da asa, mas com dedicatória
De dentro da asa vindo

Tengo los sueños de migajas de desayuno
Solúveis na manhã que desfaz seu véu
Mas alimento para os condores noturnos
Que enquanto durmo, me olham do céu

Cusco, Peru 21 de janeiro de 2007

#9 - Os livros de poemas de Amor

Foto de Consuelo Vivanco

Eles publicam seus livros de poemas de amor
Assim escritos rapidamente entre um pós doutorado e outro
Seguida de uma rápida leitura de poemas originais de Holdërlin
Em hotéis sujos de Paris onde não dormiram Sartre
Por outro lado nem tampouco os personagens de Kassovitz
Entre uma e outra foda com uma inglesa rechonchuda
Que lê um ou outro texto de efeito de Chesterton
E que vive a reclamar da posição que não lhe apetece
Eles “arriscam” um livro de poemas de amor
E fazem a propaganda da despretensão arrogante de que foram escritos mesmo
Entre um pós doutorado e outro às pressas como uma descontração
O que sabem esses ratos de óculos fundos sobre o amor?
Como amam esses ratos esguios e calvos que não trepam bem?
E nem sequer correram de madrugada cobertos de tinta gritando Clarice!
E eu que passei a vida toda a correr e a escrever livros de poemas de amor
Assim entre a poesia de Bia e de Maria Alice
Durmo moribundo numa estação rodoviária sem ser lido
Esperando agora Consuelo com uma folha de jacarandá na mão.
-
Santos, 2007

#8 - São Paulo,

Jean Michel Basquiat

Multi-soli-dão Soli-multi-dão defronte
Se não fosse triste, seria piada
Pois quanto mais passa gente na ponte
Mais a ponte não leva a nada

#7 - Ponte Octavio Frias


A ponte Octavio Frias não é o bastante para nos levar ao outro
A ponte Octavio Frias é um fracasso
E não sei mais o que faço
Com esses versos que se pretendem pontes
E eu lhe pergunto meu Deus
(as duas perguntas anteriores a todas daqui):
Para que tanto cimento?
Para que tantos carros?
Uma procissão apocaliptica
Onde o diabo anda de Bentley blindado
E a batida do coração reduz-se às luzes de freiode cinco milhões de máquinas.
Livrai-nos de toda a pressa. A pressa em não ser ninguém. Amém.
A menina também fica ruborizada quando convido-a para um passeio
E pisa no freio.
Na ponte que vos ofereço, o sinal está aberto para que possam seguir sem trânsito
E sem limite de velocidade
Seguir e se estraçalharem
Nesse muro sólido de letras.

#6 - Sobre a Beleza - Prólogo


Escrever
E ver na tristeza
A beleza
Que ainda não vivi
Viver
E crer que tristeza
É a beleza
Que ainda não escrevi

#5 - Instruções para regar as cerejeiras dos seus olhos


Não é um jogo a vida, ouça-me bem. As nuvens dançam sem compromisso. O céu começa a nublar e a hora de tomar uma decisão é agora sob o sol que ainda se impõe. No intervalo em que as palavras não espelham subterfúgios celestes, feche os olhos e tente sonhar como árvore.

O conselho que te dou é um: experimente cerejas de verdade e não aquelas que revoltantemente são feitas de chuchu e causam um desconforto estético sobre os bolos e sorvetes. Mas caso lhe seja frustrante o azedo inicial que algumas delas nos trazem, assim imprevistamente, relaxe, e tente sentir a verdadeira consistência da fruta. Degustando dessa iguaria restrita a poucos se dirija agora a uma biblioteca e tome emprestado um livro também restrito a poucos: Histórias de Cronopius y de Famas, de Julio Cortázar, e leia do Manual de Instrucciones às Histórias de Cronopius y de Famas, propriamente dita. Logo em seguida é preciso admitir que mesmo nesse inverno sem brio brotam cerejeiras dos seus olhos e que isso não nasceu depois de que nos conhecemos.

Após a leitura, convém, definitivamente, numa eleição galáctica, escolher se és um cronopius ou um fama, já que um esperanza, nunca se vê como um esperanza.

Sendo um fama, a primeira coisa a fazer é recorrer a um bom olhar empírico, quem sabe sustentado filosoficamente por uma redução fenomenológica husserliana. Deve isolar o objeto de todas as outras implicações sociais, culturais e físicas, e concentrar-se no fenômeno em si. No entanto, é importante considerar o olhar de outro fama. Adianto lhe que muito provavelmente nenhum fama além de ti conseguirá enxergar tais cerejeiras, ou constatar sua existência material.

Posta a existência aprazível e não consideravelmente nociva da hortaliça pungente que se ergue da sua fatigada vista, sem que lhe afete a visão ou um andar socialmente garboso, dá para inferir que de fato tais cerejeiras não são de natureza dotada de matéria, portanto não pesam. Deve ser um fenômeno óptico, ou mesmo feita de alguma espécie de comprimentos de onda que simulam uma dispendiosa radiação electromagnética em formato de cerejeiras floridas de inverno, curiosamente iguais às da Rua Tonelero. Outra possibilidade há de se considerar, contudo menos substanciosa, aquela que afirma ser alucinação visual ou hipnagógica, causada por algum trauma, psicose ou reação a um medicamento tomado. Convém assim reunir-se com outros famas para que lhes indique um bom psiquiatra que tenha gosto por plantas.

Considerando a natureza do fenômeno, seja qual for, e a autoridade científica concebida ao autor que te escreve e compartilha contigo a experiência empírica, vale adiantar-se no processo de banho ou regada, se quiseres ganhar cerejas verdadeiramente saborosas a tempo do Natal. Convém consultar um agricultor ou um botânico, mas sem marcar encontro, já que pode querer te expor na próxima Feira Botânica, como atração maior do que a cenoura em forma de mão humana.


Outro conselho que lhe dou bastante sucinto e concreto, é que dirija-se a Rua Tonelero num dia de chuva e finja ser um observador de pássaros debaixo das cerejeiras. Assim, misturando seus galhos com os galhos factíveis de umas das frondosas e pouco floridas árvores, elegidas pelo teu intacto e ainda apurado olhar, talvez não notarão o que em certa parte da sua cônscia manhã, pense ser uma anomalia aterrorizante. Deixe a água escorrer um pouco nos olhos, e espere alguns dias. Talvez surta algum efeito. Talvez. Não há mais nada que posso fazer por ti. Só uma ressalva: nunca, nunca consulte um esperanza a respeito de sua condição floral, pois factualmente tal ser pode confundir o fenômeno electromagnético ou  hipnagógico com uma manifestação místico-religiosa digna de aceitações indubitáveis.

Sendo tu um cronopius, a história é outra. Não conte para ninguém, mas eu posso te ajudar infalivelmente. Eu posso te ajudar a regar e a compreender tudo, mas precisamos nos encontrar. Se quiser minha ajuda, primeiramente é imprescindível levar em consideração que você, assim, cujos olhos são doces, precisa colocar um vestido, mesmo que simples, à altura de sua natureza doce. E sair de casa às duas da tarde. Tem menos trânsito.

Em seguida, leia atentamente as minhas instruções. Você não tem muito tempo. Tome o ônibus número 13 na Avenida Bernardino de Campos, em algum ponto mais ou menos próximo à praia, no sentido centro. Aprecie a paisagem, seja da fotografia das coisas, seja da fotografia das pessoas. Desça na Lagoa da Saudade e lá arrume duas pedrinhas à beira d ’água, há muitas, use uma para riscar a outra. Em uma marque a inicial de uma pessoa que perdeu e que sente muita saudade; e em outra de uma pessoa que sentiria muita saudade se perdesse agora. Arremesse-as com seriedade e algum tipo de fé.

Só alguém poderá regar a cerejeira dos seus olhos. Não será qualquer coisa ou um temporal. Só alguém. E pra ser então este alguém eu humildemente me ofereço. Estarei te esperando às 16:00 no mesmo ponto em que iniciou a viagem e que concluirá sozinha saindo da Lagoa e pegando o mesmo ônibus 13.

Ao me encontrar não dirá nada nem eu. Só olhará profundamente nos meus olhos. Se desse encontro nada render para que floresça as cerejeiras dos seus olhos e dos meus, abra o livro no conto Instrucciones para Llorar e leia cuidadosamente. Só uma ressalva: No seu caso o choro é inverso, deve ser absorvido, não derramado. E não pense que é tão simples. Mas lembre-se que existem relâmpagos que vem da terra e não do céu. Hoje deve chover.

#4 - Da Consolação com a Paulista


As pombas nublam o céu
Os homens de cachecol trazem o frio
A pressa dos estagiários adolescentes ventam minhas manhãs
Tardias e enlameia o meu horizonte
Com seus pés na marcha reta que não evita as poças
-
E a umidade que impregna no paletó dos pingüins
Para eles passarem mais rápido
Quando o sinal abre
No horário de bico
-
Com a positividade que lhe cabe
Vergonhosamente comum

#3 - Do Itaim Paulista ao Itaim Bibi


O trombone soa zoado e eu repito que escrevo pros homensuados que conseguem chegar do outro lado com três conduções vê se pode não chegam atrasados Mesmo sem ipod eles cantam baixinho Zeca Pagodinho, mas remixado Na pista à buzina assassina do Audi apressado Do Itaim Paulista ao Itaim Bibi bibi bibi! O trombone soa zoado e eu repito que escrevo pros homenstruados que conseguem com só três horinhas de sono acordar bem humorados Mesmo sem um mp3 eles cantam baixinho um funk de Doca e Cidinho, mas remixado Na pista ao despertador já são cinco em ponto já tão acordado Do Itaim Paulista ao Itaim Bibi bibi bibi! E o refrão que eu canto que eu conto que é mais poderoso é o que é da rotina sempre dançarina na cabeça entra e assim extermina não sai nunca mais e não sai nunca mais E o rifle que eu armo que eu alarmo que é mais poderoso é o que é da rotina sempre assassina na cabeça entra e assim extermina não sai nunca mais e não sai nunca mais biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

#2 Compensação


Sou muito medíocre pra contentar-me
Em ser um poetinha de merda
Pois teria que compensar minha mediocridade aqui
Que assim a moça aceite minha rosa
E que o menino com fome tenha a grande idéia que eu não tive
Que golpeie fortemente meu peito com palavras de pedra
Alguém que saiba que eu vi a vida em tudo isso
Até que eu caia em qualquer canto de terra fértil por aí
Pelo menos encontrando meu lugar
E sobre mim eles dancem e plantem
As rosas que eu não cheirei



Mas bate outra vez a esperança no meu coração…


Foto de Consuelo Vivanco.
http://www.flickr.com/photos/atabey1983

#1 - O menino sem cobertor

Menino engraxate, La Paz - foto de Bruno Villela

O menino sem cobertor sem linha sem travesseiro sem travessão, mas que a cidade encobre. O menino sem cobertor, que é sem cor, cor de pobre, com a cor que é do cobre. Que o teto não cobre. Que vende dos postes os fios de cobre que já não aquecem com a luz mais os nobres. O menino sem cobertor: É pra ele que eu teço esses fios, essas linhas, sei que não aqueço suas duras mãozinhas, mas trago nas minhas, todo o calor do meu peito e todo meu respeito ao herói que não vive e com o nome esquecido e sem glória, vende ao outro que escreve num lar aquecido – em troca de pão amanhecido – toda a beleza da sua história